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a oportunidade histórica que o Brasil desperdiça

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O Brasil nunca esteve tão bem-posicionado no tabuleiro da geopolítica global. Mas também nunca desperdiçou tanto uma oportunidade histórica.

Enquanto a disputa entre Estados Unidos e China redefine as cadeias globais de suprimento, o país detém a segunda maior reserva mundial de terras raras — atrás apenas da China —, minerais essenciais para semicondutores, turbinas eólicas e sistemas de defesa. Tem uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta, ativo estratégico na era da inteligência artificial (IA), que demanda energia massiva para data centers. E desfruta de posição neutra na disputa entre as duas superpotências que redesenham a ordem mundial.

“O Brasil, ao se descolar desse mundo geopoliticamente confuso, tende a ter um cenário favorável para atração de investimento direto, já que possui ativos importantes e alguma estabilidade política”, diz Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.

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Mas enquanto a fragmentação geopolítica e o boom tecnológico abrem janelas raras de desenvolvimento, o Brasil patina em disfunções conhecidas: juros estratosféricos, dívida pública crescente, insegurança jurídica e ausência de uma política industrial coordenada. O resultado é previsível: o país exporta matéria-prima bruta enquanto outros capturam os lucros da industrialização — repetindo um erro que remonta aos tempos coloniais.

Para impulsionar a economia brasileira, que tem um “crescimento medíocre há décadas”, são urgentes reformas estruturais que permitam investir naquilo que aumenta a produtividade do país, destaca Thiago Sbardelotto, economista da XP Investimentos.

“O principal desafio para o Brasil é deixar de ser um país de excepcional dotação geológica — apenas ter a riqueza — para se tornar um país com vocação mineral — usar a riqueza para desenvolvimento nacional. Isso requer política de Estado”, alerta o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).

A janela de oportunidade é estreita. Austrália, Chile e Vietnã já estão avançando em cadeias alternativas à China. E o tempo está se esgotando.

A hegemonia da China em terras raras e o risco Taiwan

Thomas Wu, economista-chefe do Itaú Asset Management, resume em uma frase o dilema geopolítico que coloca o Brasil no centro do tabuleiro global: “Para se armar e conter a China, os Estados Unidos dependem da importação de terras raras fornecidas, majoritariamente, pela própria China”.

O paradoxo é ainda mais complexo quando se adiciona Taiwan à equação. A ilha é o maior produtor mundial dos semicondutores mais potentes e refinados, componentes essenciais para a revolução da Inteligência Artificial.

A liderança chinesa tem adotado retórica cada vez mais agressiva sobre Taiwan, indicando que a hipótese de usar a força “absolutamente não está descartada” para o “retorno” da ilha. As ambições de Pequim se apoiam também no controle chinês sobre minerais críticos e terras raras, base para a produção desses semicondutores.

“Um problema maior lá também tem repercussões globais bem importantes”, alerta Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria.

Os Estados Unidos têm buscado reduzir a dependência de cadeias de suprimentos transfronteiriças de semicondutores, pressionando empresas a expandir a produção em solo americano. Uma ação chinesa que comprometesse o fornecimento de Taiwan intensificaria a verticalização das cadeias de produção em blocos regionais, resultando em um mundo menos globalizado e mais caro.

É nesse contexto de duplo estrangulamento — chips de Taiwan e terras raras da China — que o Brasil se torna peça estratégica. As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos essenciais para turbinas eólicas, veículos elétricos, semicondutores e mísseis guiados.

Empresas chinesas dominam cerca de 60% da extração global e quase 90% do refino. A China já impôs restrições à exportação de minerais essenciais aos Estados Unidos. Elementos pesados, cruciais para a indústria de defesa, permanecem sob forte controle chinês.

Esse domínio não foi acidental. Foi resultado de estratégias nacionais de longo prazo, como o Made in China 2025 e o 14.º Plano Quinquenal (2021-2025). Segundo especialistas que acompanham o país asiático e o setor mineral, a China progrediu no processamento desses materiais ao criar um ecossistema que integra academia, universidades e instituições governamentais, todos voltados para desenvolver tecnologias e formar engenheiros e cientistas para o setor.

O analista político Felipe Seligman, cofundador do Jota, sinalizou em live do Itaú Asset Management a mudança na retórica da China: o país utiliza a dominação da cadeia de terras raras como um gargalo em relação aos seus adversários. O monopólio permite a Pequim usar os minerais como instrumento de pressão geoeconômica — e a demanda só tende a crescer.

Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a procura global por terras raras deve crescer sete vezes até 2040, impulsionada pela transição energética e pela corrida tecnológica.

O diferencial geológico brasileiro com as terras raras

Dono da segunda maior reserva global desses minerais, o Brasil possui, mais importante, os melhores depósitos para exploração. As reservas brasileiras em argilas iônicas, especialmente em Poços de Caldas (MG), oferecem vantagens decisivas sobre as reservas em rocha dura, mais comuns em outros países.

A viabilidade econômica é superior: o processo de extração e separação é mais simples, exige menos reagentes químicos e reduz custos operacionais. A sustentabilidade ambiental também é diferencial. José Marques Braga Júnior, diretor executivo da mineradora Viridis, destaca que “o projeto Colossus da empresa, em Minas Gerais, não tem barragem nem pilhas definitivas de rejeito, representando avanço tecnológico significativo”.

Mas a vantagem geológica não se traduz em desenvolvimento. O Brasil ainda não possui plantas industriais para separação química dos elementos de terras raras. Sem processamento local, exporta apenas compostos mistos, de baixo valor agregado.

Enquanto o concentrado misto vale US$ 10 por quilo, os óxidos separados alcançam de US$ 50 a US$ 200 por quilo — até 20 vezes mais. Ímãs permanentes de alta performance, produto final da cadeia, podem valer milhares de dólares por quilo.

A tecnologia de separação é o principal gargalo brasileiro. O processo é complexo, exige expertise química avançada e investimentos significativos — exatamente o que a China desenvolveu ao longo de décadas de investimento coordenado entre governo, universidades e indústria.

“Sem uma política industrial coordenada que agregue valor localmente, o país corre o risco de repetir o erro colonial de exportar riqueza bruta enquanto outros capturam os lucros da industrialização”, alerta Alexandre Uehara, professor de relações internacionais da ESPM.

Energia limpa: o ativo ignorado na era da IA

Além do domínio mineral, o Brasil possui outro ativo estratégico para a nova economia: energia limpa em abundância, no momento exato em que o mundo mais precisa dela.

A inteligência artificial está gerando um boom de investimentos em infraestrutura sem precedentes desde os anos 1990. Grandes empresas de tecnologia nos Estados Unidos triplicaram seus gastos de capital entre 2023 e 2026, com a IA contribuindo significativamente para o crescimento do PIB americano. Mas esse crescimento exponencial tem um custo: a demanda massiva por energia e água para resfriamento de data centers.

O gás natural é a solução imediata, mas energias renováveis — eólica e solar — ganham espaço rapidamente. É aqui que o Brasil deveria estar em primeiro plano. O país possui vastas fontes de energia limpa: hidrelétrica e eólica em abundância. Tem potencial para atrair investimentos para a construção de data centers, capturando parte dessa revolução tecnológica.

Contudo, a oportunidade não está sendo aproveitada. A falta de um plano industrial claro, combinada com instabilidade fiscal e juros elevados, afasta investidores estrangeiros que buscam segurança e previsibilidade.

Luciano Telo, diretor de investimentos do UBS no Brasil, é direto: “Para que o Brasil se beneficie da transformação da IA e de seu potencial geopolítico, é necessário destravar investimentos, oferecendo condições amigáveis e um plano de desenvolvimento. As medidas necessárias envolvem a garantia de credibilidade fiscal e a redução de juros”.

A IA está criando uma “economia de duas velocidades”: setores ligados à tecnologia avançam de forma dinâmica, enquanto o restante da economia se move mais lentamente.

Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Wealth Management, alerta que, com a desaceleração da formação bruta de capital fixo (investimentos em máquinas, equipamentos e infraestrutura), o país corre o risco de ficar confinado na velocidade lenta da economia, comprometendo o crescimento potencial de longo prazo.

O professor Maurício Takahashi, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, reforça que para gerar crescimento sustentável e inclusivo, o Brasil precisa enfrentar a rigidez e a ineficiência da máquina pública e priorizar o investimento em capital humano, como a educação.

Os especialistas apontam que a demanda por energia para IA continuará crescendo exponencialmente. Mas sem um choque de credibilidade fiscal e um plano de desenvolvimento claro, o Brasil verá essa chance se fechar enquanto outros países — com matriz energética menos limpa, mas com instituições mais confiáveis — capturam os investimentos que poderiam transformar a economia brasileira.

O círculo vicioso: dívida alta, juros e falta de investimento

O Brasil tem os ativos. Tem a oportunidade. Mas não consegue aproveitá-la porque faz escolhas políticas erradas e o Estado não funciona.

A raiz do problema está no fiscal. A dívida pública brasileira ultrapassa 78% do PIB e segue em trajetória de alta, devendo se aproximar de 84% em 2026, segundo projeções do UBS.

Essa dinâmica é impulsionada pela ausência de resultados primários consistentes — ou seja, o governo gasta mais do que arrecada, mesmo descontando os juros da dívida. Em vez de enfrentar o problema pela raiz, reduzindo gastos, o governo busca o ajuste quase exclusivamente pelo aumento de impostos.

O resultado é um círculo vicioso: fiscal frágil exige juros altos para ancorar expectativas de inflação, que afastam investimento produtivo, que reduzem crescimento, que pioram a arrecadação, que exigem juros ainda mais altos. A Selic está encerrando o ano em 15%, o maior nível em 19 anos.

O professor Hugo Garbe, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, alerta que “o prolongamento de juros tão altos gera custos, como a retração do investimento produtivo, o aumento da inadimplência das PMEs e o risco de uma desaceleração excessiva”.

A política fiscal, especialmente em ano eleitoral, agrava o problema. O governo tem aprovado medidas que dão suporte à demanda: isenção do Imposto de Renda para faixas de renda até R$ 5 mil, ampliação de programas sociais e expansão de crédito.

A isenção do IR, embora apresentada como fiscalmente neutra, tem o impacto macroeconômico de elevar o gasto agregado. Na prática, isso exige uma Selic mais alta para conter a inflação, dificultando o corte de juros.

Sergio Vale, da MB Associados, e Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria, apontam que no ano eleitoral o risco é o governo evitar o bloqueio de gastos ou mudar a meta fiscal, o que aumenta a percepção de risco.

O risco de o Brasil cair em dominância fiscal — quando a política monetária perde eficácia para controlar a inflação — é real, especialmente em um cenário de piora fiscal em 2026 e ausência de reformas em 2027.

Há ainda a questão institucional. A incerteza jurídica — decisões retroativas do Congresso ou do Judiciário, limitação de créditos tributários acumulados — gera insegurança para o planejamento empresarial e inibe o investimento tanto doméstico quanto estrangeiro.

No front externo, o câmbio será o principal vetor de risco para a inflação em 2026, com um repasse estimado entre 8% e 10% da variação cambial para a inflação doméstica após quatro trimestres.

O real se mantém atrativo devido ao alto diferencial de juros, mas o déficit em transações correntes se deteriorou, atingindo 3,6% do PIB ao fim de 2025, e o investimento estrangeiro direto no país deixou de ser suficiente para financiá-lo. A fragilidade fiscal e a iminência eleitoral são fatores que podem aumentar a volatilidade cambial.

O Brasil não consegue aproveitar suas oportunidades geopolíticas porque não consegue oferecer o que investidores buscam: segurança, previsibilidade e uma máquina pública eficiente.

Três frentes para aproveitar a janela geopolítica

Para aproveitar seus trunfos geopolíticos — terras raras, energia limpa, posição neutra — o Brasil precisa agir em três frentes simultaneamente.

  • Estabilizar o fiscal pela contenção de gastos: A principal trava para o investimento produtivo é a falta de um plano fiscal crível. O ajuste deve vir da consolidação da despesa, não do aumento de impostos. Esse caminho oferece uma chance maior de um ciclo virtuoso com menos inflação, juros mais baixos e crescimento. A sinalização de um Ministro da Fazenda forte e capacitado, com um plano estratégico focado em consolidação fiscal pela via da despesa, já seria suficiente para gerar uma melhora significativa nos preços dos ativos e destravar o potencial de investimento.
  • Garantir segurança jurídica: É fundamental cessar as decisões do Congresso ou do Judiciário que alteram leis abruptamente, especialmente com efeitos retroativos. Isso gera insegurança para o planejamento empresarial e afasta investidores que buscam previsibilidade.
  • Implementar uma estratégia industrial coordenada: Segundo o Ibram, o desafio é deixar de ser apenas um país de excepcional dotação geológica para se tornar um país com vocação mineral — que usa a riqueza para desenvolvimento nacional. A proposta de criar uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), em tramitação no Congresso (PL 2780/2024), é vista como passo essencial. Mas não basta aprovar a lei. É preciso implementá-la com visão de longo prazo, integrando academia, governo e indústria — exatamente como a China fez com o Made in China 2025 e seus planos quinquenais.

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