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Os brasileiros “invisíveis” que podem decidir a eleição de 2026

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As últimas eleições presidenciais foram as mais equilibradas desde a redemocratização. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) alcançou 50,9% dos votos válidos, pouco mais de 2 milhões a mais do que os eleitores que optaram por Jair Bolsonaro (PL).

Quatro anos depois, o país vai voltar às urnas ainda sob a marca da forte polarização. Mas existe uma ampla parcela da população que não compartilha de todos os ideais de nenhum dos dois segmentos dominantes, os progressistas e os conservadores.

Um estudo recente mapeou estes cidadãos e os dividiu em dois grupos, os desengajados e os cautelosos. Cada um representa 27% do total de eleitores. Apesar de representar expressivos 54% do total, formam uma maioria silenciosa que compartilha a desconfiança com o sistema político, mas evita o confronto moral. São pessoas pragmáticas, avessas a disputas ideológicas e interessadas em temas concretos, como trabalho, segurança e serviços públicos. Esse público é sub-representado no debate político e não tem preferência partidária fixa. Por isso mesmo, deve ser decisivo para o resultado do pleito que se aproxima.

Com o título de “O Brasil Invisível”, a pesquisa foi produzida pela organização sem fins lucrativos More in Common, que tem como objetivo compreender as forças que afastam grupos sociais e identificar onde existe terreno comum para coesão social. A entidade entrevistou presencialmente mais de 10 mil pessoas, que responderam a 168 perguntas.

Segmentos distintos

O levantamento identificou seis diferentes perfis entre os eleitores. Além dos desengajados e os cautelosos, há os conservadores, que apresentam fortes traços de religiosidade e valorizam a família, a ordem e a estabilidade. Eles são menos mobilizados politicamente que os patriotas indignados, que participam ativamente de manifestações públicas. Por outro lado, são mais numerosos: representam 21% do total, contra 6% da parcela mais ativa em termos de mobilização. Em comum, ambos os grupos veem o Legislativo, o Judiciário e a imprensa como parciais e hostis à sua visão de mundo. Por isso, buscam fontes de informação alternativas no WhatsApp e no YouTube.

No outro espectro político, os progressistas militantes são 5% da população e a esquerda tradicional é composta por 14%. Ambos os grupos somam, portanto, 19% do eleitorado (contra 27% dos que tendem à direita). Os militantes são, em vários aspectos, os mais deslocados da média da população brasileira: apresentam maior porcentagem de pessoas com ensino superior (53%), maior renda familiar (37% têm ganhos iguais ou maiores que R$ 10 mil), maior predominância de brancos (57%) e mais sem religião (41%).

Já os esquerdistas tradicionais se mostram orientados por valores comunitários e religiosos, defensores da justiça social por meio do fortalecimento do Estado e da proteção dos mais vulneráveis, com menos identificação com pautas identitárias e adesão ao confronto político. Os militantes, aliás, ficam isolados dos outros segmentos, inclusive da esquerda tradicional, em vários temas ligados aos direitos humanos. Por exemplo: apenas cerca de 30% dos esquerdistas radicais concordam com a afirmação de que menores de idade que cometem crimes devem ir para a cadeia. Em todos os outros segmentos, ao menos 70% dos respondentes concordam com a frase, e a média nacional é de 85%.

Quanto aos desengajados, eles se mostram afastados da política da forma como é praticada atualmente. Em 2022, 30% deles votaram em branco ou nulo, ou não compareceram às seções eleitorais. São o segmento menos escolarizado (apenas 6% com curso superior), o mais pobre (65% têm renda familiar menor do que R$ 5 mil) e o que tem maior percentual de pretos (13%). Um décimo do segmento viveu insegurança alimentar recentemente. 

São católicos em 47% dos casos e evangélicos em 27%, e 65% dizem não simpatizar com nenhum partido, o maior percentual em todos os grupos. Ainda assim, apesar de 46% não se definirem nem como petistas, nem como bolsonaristas, 72% se identificam como conservadores. Se dizem preocupados com segurança econômica, serviços públicos de saúde com qualidade e ações efetivas de combate à pobreza. 

Os desengajados também se caracterizam pela baixa escolarização e pela pobreza. Estão no segmento mais nordestino (31%) e rural (17%), além de o mais católico (49%). O nível de engajamento político é intermediário: 26% consideram importante participar de manifestações políticas. É o segmento que tem maior desconfiança das elites, sobretudo das intelectuais, em geral relacionadas com a esquerda militante.

“Este eleitor não é apenas decisivo para a presidência, mas atua como o fiel da balança nas eleições estaduais e legislativas. Ao contrário dos polos, que votam por convicção ideológica ou rejeição visceral, o ‘Brasil invisível’ vota por demandas concretas e estabilidade”, avalia o cientista político Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e presidente do Instituto Monitor da Democracia.

Coimbra afirma que, nas disputas pelos governos estaduais, esse tipo de eleitor tende a favorecer candidatos mais focados em boas gestões do que nas guerras ideológicas. “No âmbito legislativo, a influência desse grupo se traduz em um apoio a candidaturas que prometem ordem e proteção social, muitas vezes fugindo dos extremos estridentes que dominam o debate público mas entregam pouca solução prática, consolidando um Congresso que atua como um corretor de interesses pragmáticos mais do que como um espelho das paixões ideológicas do país”, ele acrescenta.

Desgaste do eleitorado

O levantamento aponta: “O debate político brasileiro deslocou-se, na última década, do eixo econômico para o moral – fenômeno conhecido como guerras culturais. Nessas disputas, temas como família, religião, sexualidade, raça e educação substituíram a discussão sobre políticas distributivas e tornaram-se marcadores identitários”. 

O texto afirma, no entanto, que a maioria da população expressa posições intermediárias e combina elementos progressistas e conservadores. “Os dados mostram também uma ampla concordância sobre princípios de igualdade racial, de gênero e orientação sexual, mas forte divisão quando essas pautas se associam a movimentos sociais específicos. Essa dissociação entre valores e representações – entre pautas e identidades – é o núcleo divisivo das guerras culturais”.

Para Márcio Coimbra, o desgaste da retórica binária atingiu um ponto de saturação que abre brechas para novas dinâmicas. “A análise das perspectivas para as eleições de 2026 exige, antes de tudo, o reconhecimento de que o equilíbrio tectônico visto em 2022 não se repetirá de forma idêntica. Enquanto as últimas eleições foram decididas por uma margem estreitíssima em um ambiente de ‘nós contra eles’ levado ao paroxismo, o pleito de 2026 se desenha sob a sombra de uma fadiga democrática”.

Em outras palavras, o eleitorado que antes se mobilizava pelo medo do adversário agora demonstra sinais de exaustão. “Nesse cenário, o que se espera não é o fim da polarização, mas a sua fragmentação e uma transição da polarização afetiva – movida pela rejeição visceral ao ‘outro’ – para uma polarização de desempenho, em que a retórica ideológica já não basta para mascarar lacunas de gestão ou a ausência de um projeto de futuro que vá além da mera sobrevivência política”. 

E assim, argumenta o analista, “a hegemonia dos polos será testada não pela força de suas militâncias, mas pela capacidade de dialogar com as ansiedades de uma classe média e de estratos populares que não se veem refletidos na guerra cultural e que buscam, fundamentalmente, uma saída para a paralisia decisória que o conflito constante impõe ao país”. Em resumo, “a polarização ainda mobiliza as bases, mas é o diálogo com o ‘Brasil invisível’ – focado em eficiência administrativa e segurança jurídica – que garante a vitória majoritária e a sustentabilidade do poder no longo prazo”.

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