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Por que a morte do cão Orelha comoveu o Brasil?

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A morte do cão Orelha, vítima de agressões em Florianópolis, provocou forte comoção nacional. O caso rapidamente ultrapassou os limites da capital catarinense, ganhou ampla repercussão em todo o Brasil e alcançou projeção até mesmo fora do país. 

Nas redes sociais, milhares de mensagens cobraram punição aos responsáveis. A indignação deixou o ambiente virtual, e foram organizadas manifestações públicas, com protestos nas ruas de diversas cidades do país e vigílias em memória do animal. Na Avenida Paulista, milhares de pessoas participaram de um ato pedindo punição aos responsáveis pela morte do animal.

Mas, num país em que mais de 100 pessoas são assassinadas por dia, o que explica a comoção generalizada pelo cachorro Orelha? Por que esse caso ganha tanta atenção?

O caso 

Orelha era o que se convencionou chamar de “cão comunitário”: vivia na rua, mas sob os cuidados de frequentadores da região. O cachorro foi encontrado por uma moradora do local, ferido e agonizante. Transportado ao veterinário, não resistiu e morreu. 

Sinal de civilidade básica 

Para Francisco Razzo, mestre em Filosofia pela PUC-SP, professor, escritor e colunista da Gazeta do Povo, a reação coletiva e imediata revela duas dimensões que podem ser encaradas de formas distintas: uma positiva e outra preocupante. 

“Duas coisas me chamaram a atenção de imediato. Uma é a reação como um sinal ainda de civilidade básica. Temos a intuição moral de que o que aconteceu foi algo errado e sabemos o que é, sem muita intelectualização sobre isso”, avalia Razzo, autor dos livros Contra o Aborto (Record) e o recém-publicado O Silêncio das Cinzas (Edições 70). 

Para Razzo, a comoção demonstra que ainda existe na sociedade uma sensibilidade espontânea diante da crueldade. A indignação, nesse sentido, funcionaria como um marcador moral mínimo, um consenso de que certos atos ultrapassam limites elementares. 

O problema, segundo ele, começa quando a indignação se transforma em linchamento moral. “A outra questão é a do linchamento com relação à indignação que se gera, à comoção que se gera, e aí se transfere a ideia de punição para uma justiça meio imediata”, diz Razzo, que escreveu sobre o assunto para a Gazeta do Povo.

Para o filósofo, o fenômeno estaria ligado a um ceticismo crescente em relação às instituições. “Existe certo ceticismo e um certo cansaço com relação às instituições jurídicas.” 

Razzo observa que, em muitos casos, a exposição pública dos envolvidos passa a ocupar o centro da reação social. “O caso que era interessante de indignação coletiva, de sensibilização em relação ao fato, se inverte e passa a ser uma perseguição, uma espécie de caça às bruxas, bode expiatório.” Para ele, a linha entre cobrança legítima por responsabilização e desejo de vingança pode se tornar tênue.

A nova relação com os “pets” 

A psicóloga clínica Cláudia Serathiuk aponta, como fator da comoção provocada pelo caso, as transformações profundas na forma como a sociedade enxerga os animais domésticos hoje. Houve, nas últimas décadas, uma elevação do status social dos chamados “pets”. 

“Os animais passaram de fora da casa, comendo resto de comida, para dentro da casa. Hoje, cães e gatos ocupam lugar central na rotina familiar. Dormem na cama, participam de viagens, frequentam restaurantes e são tratados como filhos. O animal deixou de ter apenas uma função utilitária e passou a ocupar um lugar de afeto”, resume. 

Para Serathiuk, essa mudança ajuda a compreender a intensidade da reação no caso Orelha. “É um processo de humanização. O bicho passa a ter um valor muito grande e isso se torna uma questão moral, não apenas legal. E o animal não questiona, não briga, não trai. O cão é um amigo fiel”, diz. 

Ela também chama atenção para outro fator contemporâneo: a velocidade da internet. “Há 40 anos, um caso desses talvez aparecesse em um jornal local. Hoje, em poucas horas, todo mundo sabe e todo mundo reage.” A exposição maciça, conforme a psicóloga, potencializa a emoção coletiva. 

Maior compaixão por cachorros 

Um estudo publicado em 2017 pelos pesquisadores Jack Levin, Arnold Arluke e Leslie Irvine, na revista científica Society & Animals, apontou que as pessoas sentem mais empatia por cães do que por determinados grupos humanos em situações experimentais. 

Na pesquisa, 240 voluntários receberam relatos fictícios sobre uma vítima brutalmente agredida. A descrição do ataque era a mesma em todos os casos. O que variava era apenas a identidade da vítima: ora um bebê de um ano, ora um adulto, ora um cão, ora um filhote de cachorro. 

Os participantes demonstraram níveis de empatia significativamente mais altos quando a vítima era um bebê humano ou um filhote de cachorro. Em comparação, a reação emocional foi menor quando a vítima descrita era um adulto. 

Segundo os autores, o achado não significa necessariamente que as pessoas “valorizem mais” a vida de um animal do que a de um ser humano. O estudo sugere, em vez disso, que a empatia está fortemente associada à percepção de vulnerabilidade e inocência. 

Embora realizado em ambiente controlado, o experimento ajuda a explicar por que casos de violência contra animais podem provocar ondas de indignação pública intensas, comparáveis às reações diante de vítimas humanas consideradas igualmente vulneráveis.

Impacto das redes sociais 

Outra dimensão do Caso Orelha é o papel das redes sociais na amplificação da indignação. Pesquisas acadêmicas indicam que conteúdos carregados de emoção moral — como a agressão a um animal indefeso — têm maior probabilidade de serem compartilhados e alcançar grande repercussão.

Um estudo publicado em 2017 analisou mais de 560 mil postagens no Twitter e concluiu que mensagens que combinam julgamento moral e forte carga emocional circulam com mais rapidez nas plataformas digitais.

Termos como “crueldade”, “covardia” e “justiça” funcionaram como catalisadores de compartilhamentos. Foi exatamente esse tipo de narrativa que dominou as postagens sobre o cão agredido e morto, com a publicação de imagens, laudos, relatos de sofrimento e pedidos de punição. 

Outro fator relevante é o chamado “contágio emocional”. Experimentos mostram que emoções negativas se propagam em cadeia nas plataformas digitais. Assim, cada nova postagem indignada tende a estimular reações igualmente indignadas, criando uma espiral que amplia a sensação de revolta coletiva. 

O resultado é uma amplificação da percepção pública. Mesmo que o número inicial de pessoas mobilizadas seja restrito, a repetição intensa de mensagens pode gerar a impressão de unanimidade. No caso Orelha, a dinâmica digital ajudou a transformar um episódio local em tema nacional em poucas horas.

Busca por culpados 

A Polícia Civil de Santa Catarina concluiu, no início desta semana, o inquérito sobre a morte do cão Orelha. A investigação aponta quatro adolescentes como suspeitos de agredir o animal com um objeto contundente na Praia Brava, em Florianópolis, no dia 4 de janeiro. 

Para identificar o grupo, os agentes realizaram uma operação com mandados de busca e apreensão, perícia em dispositivos eletrônicos e análise de câmeras de monitoramento. Além dos menores, três adultos foram indiciados por coação a testemunhas, sob a suspeita de tentativa de interferência no andamento das investigações. 

Como o caso envolve menores de idade, o processo corre sob sigilo e segue as diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Se a autoria for comprovada, os jovens poderão cumprir medidas socioeducativas, incluindo a internação. 

A defesa de um dos adolescentes, no entanto, contesta o inquérito, classificando as provas como “circunstanciais”. O material extraído dos celulares apreendidos ainda passa por análise e deve integrar a fase judicial, que será conduzida pelo Ministério Público e pela Vara da Infância e Juventude.

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