O Brasil voltou a viver a expectativa diante de uma promessa de cura na medicina: a polilaminina. Desenvolvida ao longo de anos de pesquisa, a substância despontou como uma possível chave para a recuperação de lesões na medula espinhal, acendendo a esperança de milhares de pessoas com paralisia.
O entusiasmo, no entanto, se deparou com a cautela da comunidade científica. E após a entrevista da cientista Tatiana Sampaio, responsável pelo estudo, ao programa Roda Viva, diversas críticas surgiram.
O debate não duvida da seriedade do trabalho. Não há evidências de que a pesquisa seja uma fraude. A questão central é a distância entre resultados promissores e a eficácia clínica.
O caso da polilaminina ilustra o descompasso entre dois tempos diferentes. O tempo da expectativa das pessoas. E o tempo da ciência, que exige revisões por pares, reprodutibilidade e testes rigorosos.
Esta tensão entre a expectativa e a realidade não é um fenômeno novo no Brasil. A história recente da medicina no país guarda capítulos em que o entusiasmo inicial sobrepujou as evidências, forçando a ciência a recuar, revisar seus dados e reinterpretar suas descobertas.
A Fosfoetanolamina Sintética
Na década passada, o Brasil testemunhou um dos episódios mais complexos de sua história médica recente. A promessa vinha em cápsulas azuis e brancas, distribuídas inicialmente de forma quase artesanal pelo Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), no campus de São Carlos.
A fosfoetanolamina sintética foi alçada ao status de “pílula do câncer”. A premissa era que a substância seria capaz de marcar células tumorais para que o próprio sistema imunológico as destruísse.
O entusiasmo foi avassalador. Pacientes oncológicos em estágios terminais, agarrando-se a relatos anedóticos de cura, iniciaram uma judicialização sem precedentes para obter o composto. O clamor foi tamanho que, em 2016, o Congresso Nacional chegou a aprovar uma lei autorizando o uso da substância antes mesmo de sua aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Para sanar a controvérsia, o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) foi encarregado de conduzir ensaios clínicos rigorosos, financiados pelo poder público. Nos testes com humanos, a fosfoetanolamina não demonstrou eficácia clínica significativa contra os tumores avaliados, apresentando taxas de resposta inferiores às de tratamentos convencionais já disponíveis.
Diante desse quadro, o estudo foi suspenso precocemente por falta de benefícios. O legado da “pílula do câncer” se tornou um alerta histórico sobre os perigos de se legislar sobre a biologia e as consequências de abandonar terapias baseadas em evidências em prol de esperanças não testadas.
O Exoesqueleto
O ano era 2014 e os olhos do planeta estavam voltados para o Brasil. Além da Copa do Mundo, o país sediava o clímax do Projeto Andar de Novo, liderado pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis.
A promessa: um paciente paraplégico se levantaria da cadeira de rodas, caminharia até o centro do campo e daria o chute inaugural do torneio usando um exoesqueleto robótico controlado diretamente por sua atividade cerebral. A interface cérebro-máquina foi apresentada não apenas como um feito de engenharia, mas como o prenúncio do fim das cadeiras de rodas.
Quando o momento chegou, o chute durou apenas alguns segundos e foi ofuscado na transmissão oficial, deixando o público frustrado. Mas a verdadeira revisão dessa promessa ocorreu nos anos seguintes, nos laboratórios e nas publicações científicas.
De fato, a tecnologia funcionava. Publicações em revistas de alto impacto como a Scientific Reports comprovaram que o treinamento intenso com a interface cérebro-máquina induziu uma plasticidade neurológica surpreendente, fazendo com que alguns pacientes recuperassem percepções táteis e controle muscular parcial abaixo da linha da lesão.
Contudo, os limites da descoberta logo se impuseram. O exoesqueleto se revelou um equipamento excessivamente complexo, pesado e de custo proibitivo para o uso diário em massa. A revolução clínica que substituiria a cadeira de rodas de forma prática e imediata não se materializou.
Células-Tronco para Doenças Cardíacas
Na virada do milênio, a cardiologia brasileira assumiu uma posição de vanguarda global em terapia celular, uma das áreas mais promissoras da biologia moderna. O entusiasmo estava na hipótese de que células-tronco adultas, extraídas da própria medula óssea do paciente, poderiam ser injetadas no coração para regenerar o músculo cardíaco morto após um infarto grave ou devido aos danos crônicos da Doença de Chagas.
Falava-se na possibilidade de reverter a insuficiência cardíaca e, em última instância, abolir a fila de transplantes de coração. Hospitais e a mídia abraçaram a narrativa de que o próprio corpo forneceria as peças de reposição para curar seu motor principal, gerando uma fila de pacientes em busca de tratamentos experimentais em todo o país.
A revisão dessa expectativa, entretanto, representou um dos capítulos mais maduros da ciência nacional. Para tirar a terapia do campo das promessas e submetê-la ao escrutínio da ciência, o Ministério da Saúde financiou o Estudo Multicêntrico Randomizado de Terapia Celular em Cardiopatias, o maior ensaio clínico do gênero no mundo à época, envolvendo dezenas de centros de pesquisa.
Anos de acompanhamento rigoroso e testes duplo-cego culminaram em um veredito publicado em revistas de alto impacto: o procedimento era seguro, mas ineficaz. As células-tronco não promoviam melhora clínica significativa na capacidade de bombeamento do coração quando comparadas ao tratamento padrão otimizado.
O Cogumelo do Sol
Muito antes da revolução genômica ou das terapias-alvo, a esperança de uma cura milagrosa para o câncer apareceu no interior de São Paulo. Nas décadas de 1990 e 2000, o Agaricus blazei, popularmente batizado de Cogumelo do Sol, tornou-se o epicentro de uma febre global de saúde alternativa.
O fungo, cultivado inicialmente na região de Piedade, foi alçado ao estrelato sob a premissa de possuir propriedades antitumorais e imunológicas. A expectativa cresceu, alimentada por relatos anedóticos de remissões inexplicáveis e por um mercado de suplementos que movimentava milhões.
Pacientes oncológicos passaram a consumir extratos e chás do cogumelo de forma indiscriminada, muitas vezes negligenciando tratamentos convencionais urgentes na crença de que a natureza havia fornecido o antídoto.
Pesquisas conduzidas em laboratórios de ponta ao redor do mundo confirmaram que o cogumelo continha, de fato, substâncias bioativas, como as beta-glucanas, capazes de estimular respostas do sistema imunológico em testes pré-clínicos. Mas a extrapolação desse dado para a cura do câncer humano se provou uma falácia.
Ensaios clínicos e revisões demonstraram que o Cogumelo do Sol não substituía a quimioterapia ou a radioterapia, atuando no máximo como um potencial suplemento alimentar. Mais grave ainda, a literatura médica começou a registrar casos preocupantes de hepatotoxicidade aguda em pacientes que consumiam altas doses do extrato.
- Quem é Tatiana Sampaio, a pesquisadora brasileira que tenta curar a paraplegia

