Após encerrar 2025 com recorde nas exportações, superando o período do tarifaço americano, o setor de carne bovina brasileiro enfrenta em 2026 um novo desafio: a imposição de taxas alfandegárias por China e México. O novo cenário, somado a mudanças na oferta global, deve reorganizar os fluxos do comércio internacional.
Como medida de salvaguarda, ou seja, voltada a proteger produtores internos, o país asiático passou a impor, para este ano, uma cota de importação de 1,1 milhão de toneladas de carne brasileira sob a tarifa de 12%. O que exceder esse limite terá uma sobretaxa de 55%, resultando em um patamar proibitivo de 67%.
O México, por sua vez, anunciou no dia 5 de janeiro que taxará em 20% toda carne bovina que superar o volume de 70 mil toneladas – abaixo desse limite a importação continuará isenta de tarifa, como no ano passado.
China responde por quase metade das exportações de carne brasileira
A China é, de longe, o maior destino da carne bovina brasileira, tendo importado, no ano passado, 1,68 milhão de toneladas da proteína – o equivalente a 48,3% do volume total exportado pelo Brasil, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Já o mercado mexicano foi o sexto principal comprador do produto brasileiro, com 118 mil toneladas importadas. A imposição das cotas por ambos os países dificulta a manutenção do mesmo nível de exportação pelo Brasil no último ano.
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A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) afirmam ser necessários “ajustes ao longo de toda a cadeia, da produção à exportação, para evitar impactos mais amplos”.
Isso porque, segundo as entidades, os embarques dizem respeito a produtos com valor agregado e perfil distinto do consumo doméstico.
Apesar disso, o impacto das novas regras comerciais não deve ser significativo. Embora o governo federal tenha anunciado que atuará, tanto em negociação bilateral, quanto no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), na mitigação dos efeitos da medida chinesa, o próprio ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, minimizou o anúncio do país asiático.
Além de o Brasil ter aberto, nos últimos três anos, 20 novos mercados para a carne bovina, incluindo destinos como o Vietnã, o ministro disse que negociará a transferência de cotas de outros países que também exportam para a China.
O governo e o setor produtivo ainda têm a expectativa de abrir novos mercados, como Japão e Coreia do Sul, após o país ter sido reconhecido, no ano passado, como livre de febre aftosa sem vacinação pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA).
O Japão é o terceiro maior importador mundial de carne bovina, hoje atendido em 80% por Estados Unidos e Austrália.
Escassez global de carne ajuda a amortecer impactos
Apesar do esforço necessário para a reorganização do fluxo comercial, o contexto global de escassez da proteína bovina também deve mitigar os impactos adversos, segundo análise da Consultoria Agro do Itaú BBA.
Os economistas do banco projetam uma contração de cerca de 2% na produção brasileira de carne bovina em 2026 — o equivalente a aproximadamente 200 mil toneladas —, volume que representa cerca de um terço da carne que precisaria ser realocada caso as exportações para a China repitam o recorde de 2025.
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“Após quatro anos consecutivos de descarte de fêmeas no Brasil, é possível que essa estimativa de queda ainda seja conservadora. Além disso, a tendência para 2027 e 2028 também aponta para novas reduções de produção”, diz relatório da instituição.
No contexto global, ainda que países sul-americanos concorrentes, como Argentina e Uruguai, ampliem sua participação no mercado chinês, por terem ficado com cotas superiores às suas exportações em 2025, o Brasil não apenas não perde, como pode tirar proveito disso.
O setor brasileiro poderia, por exemplo, abastecer o mercado doméstico da Argentina, permitindo que uma parcela maior da produção do país vizinho seja direcionada à China.
“Adicionalmente, o Brasil reúne condições para ampliar suas exportações de carne bovina para os Estados Unidos em 2026, especialmente após a retirada do tarifaço e, sobretudo, em função do aumento do déficit norte-americano projetado para este ano.”
Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês), esse déficit deve alcançar 1,3 milhão de toneladas, cerca de 100 mil toneladas acima do registrado em 2025.
O próprio presidente da Abiec, Roberto Perosa, vê com otimismo a tendência de exportações para este ano, projetando uma estabilidade nos números, após dois anos consecutivos de forte crescimento.
“Entramos em 2026 com negociações ativas e perspectiva concreta de avançar em mercados como Japão, Coreia do Sul e Turquia, que têm alto potencial e vêm sendo trabalhados de forma técnica e contínua, em parceria entre o setor privado e o governo. A visão é de um crescimento mais qualificado, com previsibilidade, competitividade e maior valor agregado, e sempre atento às questões geopolíticas”, afirma.

