Estava aqui pensando: por acaso a família Bolsonaro virou dona do Brasil e não me avisaram? Deram a eles o controle total sobre sistema eleitoral e sobre as decisões dos eleitores de direita? Se sim, não sei quem foi que lhes deu esse poder todo. Poder de decidir quem vota em quem e, mais importante do que isso, por quê. Eu, seguramente, não fui. Por acaso foi você, leitor?
Faço todas essas perguntas porque, no fim de semana, o clima foi de barraco entre o clã Bolsonaro. Tudo começou com Eduardo Bolsonaro, todo enciumado e ressentido, reclamando da proximidade entre o deputado Nikolas Ferreira e o ex-presidente. Daí ele atacou a madrasta, Michelle, que se recusa a apoiar publicamente o primogênito Flávio. Que, aliás, ficou na dele e está certo em agir assim.
Banana frita
Depois, Nikolas disse que Eduardo não está bem. Difícil discordar. No meio disso tudo, apareceu o Carlos Bolsonaro, todo desesperado, para contar que, entre crises de vômito e ataques de soluço, e tomando remédios fortíssimos, o patriarca está tomando as melhores e mais sábias decisões políticas, determinando candidatos, distribuindo bênçãos e supostamente garantindo vitórias nas urnas.
Ah, calma que eu não te contei. Toda essa salada de intenções e ambições políticas (e familiares) aí culminou com uma publicação de Michelle Bolsonaro para o enteado revolts, Eduardo. Depois, ela apagou ou o stories desapareceu. Na publicação, a madrasta fritava banana e todo mundo está dizendo que a imagem é uma referência ao moço dos pen-drives. Então deve ser mesmo.
E se for, a postagem é o exemplo perfeito de uma família que já perdeu a capacidade de fazer distinção entre o público e o privado.
Cadê o projeto de país?
E eu aqui enfileirando exclamações: quanta bobagem!, que criancice!, que ridícula essa lavação de roupa suja em público! Será que a família Bolsonaro não tem ninguém para avisá-los de que não estão com essa bola toda, não? Que eles não têm o direito de ficar repartindo às turras o que não lhes pertence?
Porque, para mim, essas picuinhas familiares e eleitorais todas só escancaram um problema estrutural do bolsonarismo: a ausência de um projeto de país. Digo, qualquer outra coisa que vá além da velha ladainha de que Lula isso, o comunismo aquilo, a corrupção aqueloutro. Qualquer coisa que vá além da pregação para os convertidos, das bravatas e da disposição para o confronto nas redes sociais. Estou falando de PROJETO DE PAÍS – assim, em caixa alta e, se me provocar, ainda meto uns pontos de exclamação: PROJETO DE PAÍS!!!!!!!!!
(Me ocorreu agora)
(Meu Deus! Me ocorreu uma coisa agora que talvez até mereça um texto só para si: se não conseguem nem fazer as pazes dentro de casa, como a família Bolsonaro espera governar um país conflagrado como o nosso? Como esperam lidar com a oposição virulenta que a esquerda certamente fará a um eventual governo de Flávio Bolsonaro? Vai ser tudo na base do grito novamente? Eu quero isso? Você quer? Nós queremos!).
Sobrenome basta?
O fato é que a família Bolsonaro não tem um projeto de país para mostrar ao Brasil. Para os otimistas, não tem ainda. Mas não tem. Tá, digamos que, por serem “de direita”, dá para ter uma ideia do que os Bolsonaro pensam sobre economia e costumes. Mas dá mesmo? Porque não me parece que a direita pense em bloco. Ou pensa?
Será que Flávio, Michelle, Eduardo e o próprio Jair acreditam que o sobrenome Bolsonaro basta para que o eleitor pressuponha que os membros da família tomarão as melhores decisões sobre todos os problemas do Brasil, desde a tragédia anunciada da dívida pública até a hipertrofia do Judiciário? Sei lá. Pelo que vi de 2019 a 2022, tenho cá as minhas dúvidas.
Me explica?
Ao mesmo tempo, olha só que curioso: a família Bolsonaro age como se as eleições de 2026 já tivessem sido vencidas. Por eles, claro. Como se Flávio fosse presidente e tivesse o controle da Câmara e do Senado e o apoio popular para… Para pôr em prática o projeto de país que eles não têm. Me explica?
E, já que você está no embalo, me explica também por que uma família composta por:
um senador pré-candidato à Presidência;
uma esposa e talvez futura senadora;
um deputado federal exilado;
um vereador recém-convertido ao catarinismo;
e um ex-presidente encarcerado;
…por que um sobrenome que já conta com o apoio cego de (vou chutar baixo) 15% do eleitorado não está preocupado em conquistar aquela parcela nada desprezível da população que, diante das notícias de Lula e Janja e Alexandre de Moraes e Viviane, por exemplo, anda cansada justamente dessa promiscuidade entre o que é público e o privado? No aguardo, como se diz.

