O senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anunciou que pretende acionar “rapidamente” o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra a homenagem feita ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no desfile da Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro deste domingo (15).
No seu perfil no X, o senador postou críticas à possível propaganda antecipada e uso de recursos públicos para realizar ataques pessoais ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e à “família”. A crítica é uma referência à ala caracterizada como “famílias em lata de conserva”, criticando, segundo a escola o “neoconservadorismo enlatado”.
Outros parlamentares também criticaram a ironia que classificaram como “ataque à família tradicional” e “desrespeito à fé cristã”.
“Calma, a esquerda não odeia a família conservadora não. É tudo conspiração… lembre-se disso na hora de votar esse ano, evangélico. Obs: a globo colocando como “crítica”, mas se fosse cristãos fazendo essa crítica contra qualquer outra religião, era a terceira guerra mundial”.”, escreveu o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) em seu post no X.
A deputada Carol de Toni, que deixou o PL no início do mês, pós divergências internas sobre sua candidatura ao Senado por Santa Catarina, também manifestou sua contrariedade. “Que fique como um alerta para quem ainda acha que é exagero. Está translúcido: o alvo são as famílias e os valores conservadores”, postou com um trecho do vídeo da apresentação.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) afirmou que é “inadmissível ridicularizar a fé de milhões de brasileiros” e disse que a ala foi um deboche contra evangélicos e contra o modelo de família defendido por setores conservadores. Segundo a parlamentar, manifestações culturais não podem servir para atacar crenças religiosas.
Já o senador Sergio Moro (União Brasil-PR) classificou a homenagem como “desrespeitosa com a família” e afirmou que o desfile teve viés político explícito. Em publicações no X, Moro comparou a exaltação ao presidente a práticas de culto à personalidade.
Influenciadores de direita também publicaram notas de repúdio, afirmando que o Carnaval não deveria servir de palco para “militância ideológica”. “Uma ala inteira ridicularizando os conservadores, colocando-os em latas de conserva? O que isto tem a ver com a história do Lula? É claramente uma crítica ideológica à direita conservadora”, postou o empresário e ativista Alexis Fonatyne.
Oposição já questionou inelegibilidade
Outras iniciativas já foram tomadas pela oposição em meio ao debate sobre inelegibilidade de Lula — que marcou os anos anteriores com decisões judiciais envolvendo lideranças políticas de diferentes espectros.
Nesta segunda (16), o deputado Filipe Barros (PL-PR) anunciou que pretende protocolar uma ação no TSE contra o desfile em homenagem ao presidente.
Na 5ª feira (12.fev), o Tribunal Superior Eleitoral rejeitou, por unanimidade, a liminar apresentada pelo partido Novo e pelo deputado Kim Kataguiri (União Brasil-SP) para proibir o desfile da Acadêmicos de Niterói.
A relatora, ministra Estella Aranha, indicada por Lula ao cargo, afirmou que não cabe censura prévia e que eventual irregularidade deve ser analisada em momento oportuno.
No Tribunal de Contas da União, o Novo também apresentou representação para tentar impedir o repasse de R$ 1 milhão da Embratur à escola de samba. A área técnica da Corte recomendou barrar os recursos, mas o relator do caso, ministro Aroldo Cedraz, decidiu negar o pedido de suspensão.
Paralelamente, a senadora Damares Alves e o deputado Kim Kataguiri (União Brasil-SP) moveram ações contra o presidente por causa do enredo da agremiação. As iniciativas foram rejeitadas pela Justiça Federal.
Enredo homenageia Lula e critica “valores engessados” da família
A alegoria fazia parte do enredo que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Intitulado “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, o desfile narrou a trajetória do petista desde a infância em Pernambuco, passando pela migração para São Paulo, a atuação como líder sindical no ABC paulista durante a ditadura militar e sua chegada à Presidência da República.
A escola construiu uma narrativa épica, com alas representando a seca nordestina, o chão de fábrica, as greves históricas e programas sociais associados aos governos petistas. O refrão do samba exaltava a “esperança que brota do povo” e a “força do operário”, numa clara celebração da biografia política de Lula.
A ala das “latas de conserva” surgiu no setor do desfile que tratava dos embates ideológicos contemporâneos. Segundo integrantes da escola, a proposta era simbolizar o que chamaram de “pensamentos engessados” ou “valores conservados no tempo”.

