O início do Ramadã 2026 é o epítome definitivo e ruidoso de uma Europa radicalmente mudada. A Itália, que por séculos marcou seu próprio tempo pelo repicar dos campanários, redescobre-se hoje um território de conquista cultural, onde o chamado do muezim e as circulares escolares sobre o jejum islâmico contam mais do que as tradições que fundaram a nossa civilização. Enquanto a Comunidade de Santo Edígio e a Genti di Pace, juntamente com várias dioceses espalhadas pelo país da bota — de Turim a Bolonha, passando por Mântua — apressam-se em abençoar o mês sagrado, percebemos que a cortesia do diálogo tornou-se o silêncio do náufrago.
O coração desta metamorfose bate hoje em Gênova, entre os muros do histórico instituto de ensino médio Vittorio Emanuele II-Ruffini. A escola, que conta com nada menos que 1.400 estudantes, tornou-se o centro de uma controvérsia que envolveu a cúpula do Gabinete Escolar Regional e o próprio Ministério da Educação. Aqui, um comunicado interno da direção, em nome da integração, exortou o corpo docente a adiar provas e arguições, remodelando toda a programação didática para acomodar as necessidades dos alunos que observam o Ramadã. A escola foi, assim, convidada também a adaptar-se aos ritmos biológicos deles, evitando cuidadosamente marcar avaliações em concomitância com a vigília de oração do vigésimo sétimo dia ou para o Eid al Fitr, festividade de encerramento. Houve, ainda, o convite dirigido aos professores de educação física para conceder amplas isenções da atividade. A escolha despertou profundo desconcerto no restante dos estudantes e desencadeou imediatas e ásperas polêmicas também entre os professores, que relataram formalmente os fatos ao Gabinete Escolar Regional.
Enquanto isso, o ministro Giuseppe Valditara foi solicitado a enviar inspetores imediatamente. De qualquer modo, nada de novo sob o céu italiano: basta recordar a vontade de fechar a escola de Pioltello, já há dois anos, também pelo Ramadã, ou a proposta de transformar o Natal em “Festa de Inverno” no Instituto Universitário Europeu de Fiesole.
Em Roma, enquanto isso, a pressão cresce. Há o neopartido islâmico MuRo27 (Muçulmanos por Roma 2027), chefiado pelo ex-democrata Francesco Tieri, que visa incidir na agenda eleitoral romana com propostas políticas baseadas na religião islâmica. A exigência deles é explícita: fechar as escolas na Capital para favorecer o Ramadã, exatamente como ocorreu, sublinham eles, em Pioltello, onde 40% dos estudantes se ausentavam, impossibilitando as aulas na prática. Uma bela tomada de posição ideológica, escolhendo conscientemente Roma como símbolo da revolução que está sendo travada por uma religião que, de resto, ainda não assinou o acordo com o Estado italiano.
Entre menus halal nas cantinas escolares, polêmicas sobre o crucifixo e aulas que não perturbem o Islã, o risco de uma total prostração ideológica é palpável. Trata-se de uma forma de discriminação invertida, na qual se exigem direitos sem respeitar deveres, tradição e identidade.
O espelho deformante deste futuro é Colônia, na Alemanha. Aqui, os sinais de islamização estão por toda parte: ao passar diante da majestosa catedral, uma das igrejas mais imponentes da cristandade europeia, percebe-se que o símbolo agora é apenas um cenário de cartão-postal. A Mesquita Central de Colônia domina, de fato, a paisagem com seus dois minaretes de 55 metros e uma cúpula monumental — um complexo que custou mais de 30 milhões de euros e foi financiado pela União Turca DITIB. Inaugurada pessoalmente pelo presidente Erdoğan, a mesquita é gerida por imãs que são funcionários públicos turcos enviados por Ancara como verdadeiros agentes governamentais na Alemanha. Em 2024, até o clube de futebol local inseriu a silhueta da mesquita na camisa oficial como uma “homenagem à inclusão”. Desde 2021, o chamado do muezim é difundido por alto-falantes em todo o bairro, um sinal de respeito aprovado pela prefeita: um chamado ligado à expansão do islamismo que encobre todo o resto.
Em Londres, a situação está ainda mais avançada. Há anos, agora, o Ramadã parece ter suplantado qualquer solenidade da cristandade.
É aquela mesma Colônia onde, em 2015, consumou-se uma das páginas mais vergonhosas da história recente: mais de 1.000 homens agrediram sexualmente 1.200 mulheres alemãs, culpadas de serem brancas e vestidas à moda ocidental — portanto, passíveis de violação, segundo o costume islâmico — usando a técnica islâmica do taharrush gamea (assédio coletivo), posteriormente importada até para a Itália. A reação das autoridades foi a censura e a minimização, acusando quem denunciava de alimentar o ódio racial. Um roteiro que se repetiu tragicamente também durante as últimas festas de réveillon na praça em Milão.
Em Londres, a situação está ainda mais avançada. Há anos, agora, o Ramadã parece ter suplantado qualquer solenidade da cristandade. Nos grandes supermercados, destacam-se anúncios que perguntam: “Você está pronto para o Ramadã?”, a Harrod’s propõe jantares para o Iftar (a refeição noturna que interrompe o jejum) em seu site, as redes de fast-food oferecem descontos e os cabeleireiros ficam abertos até tarde. As “Luzes do Ramadã” brilham na Coventry Street, fazendo concorrência àquelas instaladas para o Natal. Há até o momento do acendimento institucionalizado, exaltado e publicitado com orgulho pelo prefeito muçulmano Sadiq Khan — são luzes interativas que ocupam as várias praças para desejar “bom Ramadã”. Os sites de turismo londrino sugerem, então, os melhores itinerários para celebrar o Ramadã na cidade, com direito a roteiro gastronômico e eventos organizados pela comunidade muçulmana. As escolas modificam os calendários e a BBC encoraja a empatia para com quem jejua: é uma cidade onde os muçulmanos representam 15% e os cristãos são uma minoria silenciosa.
Até o futebol inglês se rendeu. Na Premier League e na English Football League, foram institucionalizadas pausas durante as partidas para permitir que os muitos jogadores muçulmanos — campeões como Mohamed Salah, William Saliba ou Abdoulaye Doucouré — interrompam o jejum ao pôr do sol. O protocolo, nascido em 2021, prevê suspensões acordadas antes da partida e testemunha como os clubes estão progressivamente se submetendo, abraçando esta identidade religiosa e política em detrimento da prática esportiva.
É uma transformação cultural tão potente que produz reflexos econômicos concretos. Na Itália, por exemplo, os muçulmanos são mais de 1,7 milhão (30% da população estrangeira). O mercado de produtos certificados halal — alimentares, cosméticos e farmacêuticos — cresceu 3,5% em valor no último ano, superando os 381 milhões de euros em vendas no varejo. O Ramadã tornou-se uma verdadeira “microestação” de consumo: redes como o Carrefour ativam agora descontos específicos em carnes e ingredientes para o Iftar e aguardam o consumo noturno para faturar.
E, então, onde está a inclusão quando os cidadãos europeus se sentem estrangeiros em seus próprios bairros? Onde está a diversidade quando a única cultura visível é a islâmica? Onde foi parar a cristandade europeia? Por enquanto, ela fica a observar a força avassaladora do Ramadã.
© 2025 La Nuova Bussola Quotidiana. Publicado com permissão. Original em italiano: Macché Quaresima, l’Europa sottomessa augura “Feliz Ramadan”.
Ensaísta e publicista, Lorenza Formicola é analista do mundo árabe e islâmico. Especialista em islamismo na Europa, concentrou sua pesquisa na radicalização, nas atividades das organizações e nas estruturas inspiradas na Irmandade Muçulmana, bem como nas dinâmicas e na evolução das redes jihadistas no Ocidente.

