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o Brasil na era da competição sistêmica

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O discurso proferido por Marco Rubio, Secretário de Estado dos EUA, na Conferência de Segurança de Munique 2026, não deve ser compreendido como peça retórica circunstancial ou, muito menos, como performance ideológica de consumo doméstico exportada para o público europeu. Foi, antes, a tradução política de uma grande estratégia consolidada nos documentos estruturantes da administração Trump: a National Security Strategy (NSS) 2026 e a National Defense Strategy (NDS) 2026, ambos já analisados por mim aqui nesta Gazeta, os quais delineiam os contornos de uma doutrina capaz de informar a ação estratégica dos Estados Unidos pelas próximas décadas.

Rubio não improvisou. Demonstrou extrema coerência entre formulação conceitual, planejamento militar e discurso diplomático. Ao afirmar que a erosão da base industrial, a dependência de cadeias produtivas externas excessivamente longas e a perda de empregos estratégicos fragilizam não apenas a economia, mas a própria segurança nacional, o secretário de Estado deixou claro ao mundo quais os novos pilares do pensamento estratégico americano, assentado na síntese entre economia, segurança e soberania: o abandono definitivo do universalismo liberal globalista do pós-Guerra Fria, a aceitação de limites ao poder, a hierarquização rigorosa e seletiva de interesses e o retorno à lógica clássica da política de poder.

O ponto central é inequívoco: a competição global do século XXI é estrutural, tecnológica e industrial. Não se trata apenas de forças armadas, divisões blindadas e porta-aviões, mas de semicondutores, inteligência artificial, minerais críticos, energia, cadeias logísticas curtas e capacidade produtiva. A segurança nacional passou a depender da resiliência econômica, e não apenas da eficiência. A soberania passou a decorrer, em larga medida, da autonomia estratégica, a qual depende de autonomia tecnológica. E a execução bem-sucedida da política externa passou a depender da base industrial. Não se trata, portanto, de mera inflexão retórica, mas de genuína mudança de paradigma.

Geoeconomia: quando o comércio vira arma

A NSS identifica explicitamente a competição entre grandes potências como eixo organizador do sistema internacional. A NDS reforça que dissuasão militar só é crível se sustentada por uma Base Industrial de Defesa (BID) robusta, inovadora e integrada. Rubio, em Munique, trouxe essa lógica ao plano político: não há segurança se empregos industriais estratégicos são exportados; não há soberania se cadeias críticas são dominadas por rivais; não há prosperidade duradoura se se perde controle sobre setores-chave.

Essa formulação ecoa no plano prático o que Edward Luttwak definiu como geoeconomia: o uso deliberado de instrumentos econômicos para fins estratégicos. Comércio e cadeias produtivas convertem-se em ferramentas de influência e instrumentos de poder, ao passo que interdependência se torna sinônimo de dependência, logo, uma vulnerabilidade a ser administrada e, idealmente, evitada.

Estamos, ao que parece, assistindo ao ressurgimento atualizado das teses declinistas da década de 80, cujo maior expoente, o teórico Paul Kennedy, autor do clássico Ascensão e Queda das Grandes Potências, de 1987, já alertava que as grandes potências mundiais têm uma tendência histórica ao declínio relativo devido a um desequilíbrio entre seus compromissos militares globais e a sua base econômica. Ou seja, quando sua base econômica deixa de sustentar seus compromissos estratégicos.

A diferença, desta vez, é que Washington não se limita a diagnosticar o problema, mas está aplicando todos os recursos possíveis para impedir que essa tendência se confirme, de forma a permanecer como a superpotência indispensável, desde fortalecimento da BID e encurtamento de cadeias produtivas à imposição de restrições análogas às de exportação de bens de uso dual sobre modelos de inteligência artificial e restrições tecnológicas cirúrgicas à China, entre outros.

Os exemplos práticos abundam e são tão eloquentes quanto desconfortáveis para quem insiste em ignorá-los: a guerra na Ucrânia expôs a fragilidade das cadeias ocidentais de munição e produção de armamentos; a dependência europeia do gás russo revelou vulnerabilidade energética colossal; a concentração de semicondutores no Leste Asiático transformou a tecnologia em risco geopolítico de primeira ordem.

Washington respondeu reorganizando cadeias produtivas, incentivando reshoring e friendshoring, impondo restrições tecnológicas e vinculando política industrial à segurança nacional.

O Brasil e o grotesco do contraste

Infelizmente, para nós, é exatamente nesse ponto que a comparação com o Brasil emerge de maneira, mais do que constrangedora, grotesca. Enquanto Washington reorganiza seu lugar no sistema internacional – e o próprio sistema internacional – com base em planejamento estratégico integrado, o Brasil lulopetista permanece intelectual, conceitual e operacionalmente atrasado, preso a esquemas, práticas e métodos do século passado, e politicamente incapaz de formular qualquer concepção coerente de poder nacional.

O debate brasileiro, essencialmente precário e superficial, insiste em tratar economia como assunto doméstico e defesa como tema periférico, como se vivêssemos numa redoma imune às correntes tectônicas que redesenham a ordem mundial, enquanto Washington associa competitividade industrial à segurança nacional. A separação artificial entre essas esferas revela atraso conceitual grave. Em um mundo no qual semicondutores, terras raras, inteligência artificial e segurança energética são instrumentos de influência estratégica, insistir em uma diplomacia descolada da base produtiva é optar, deliberada e preguiçosamente, pelo atraso e pela irrelevância.

Nesse sentido, o vazio estratégico do governo Lula não parece ser apenas ideológico, mas estrutural, com demonstrações sistemáticas e consistentes de incapacidade de formular planejamento estratégico de longo prazo. Confunde ativismo diplomático com projeção de poder. Trata fóruns multilaterais como palco simbólico para o exercício do narcisismo presidencial, enquanto o mundo retorna à lógica de competição sistêmica.

Lula e seus asseclas, como Celso Amorim e Mauro Vieira, dentre outros artífices da destruição travestida de iniciativas autocongratulatórias, evidenciam total despreparo para compreender essa mutação estrutural. Os EUA implementam iniciativas para reorganizar sua base industrial e produtiva, eliminar impostos internos e aumentar a produtividade e a competitividade. O Brasil, por sua vez, não poupa esforços para desorganizar sua política fiscal e sua matriz tributária. Trump integra segurança e economia, Lula separa desenvolvimento de defesa, oferecendo migalhas para que as Forças Armadas mantenham apenas o mínimo de sua já reduzida capacidade operacional.

Improvisação como método, irrelevância como destino

A coerência diplomática e estratégica explicitada por Rubio contrasta agudamente com o improviso sobejamente ostentado pelas lideranças brasileiras, doutoras na arte da implementação de desconexas iniciativas ad hoc, que oscilam entre a surrada narrativa Sul-Sul e navegam entre um terceiro-mundismo improdutivo e um multilateralismo abstrato. Tudo isso enquanto ignoram o fato de que o sistema internacional voltou a operar segundo a lógica do poder, e não da retórica normativa, rebaixando o país ao vergonhoso papel submisso de bajulador de ditaduras e aumentando sua já grande dependência de capitais externos, sobretudo chineses.

Essa dependência crescente de capitais e cadeias externas é tratada como mero fluxo financeiro, quando deveria ser analisada como aquilo que realmente é, vulnerabilidade estratégica. Cadeias concentradas geram dependência. Dependência gera assimetria. E assimetria limita autonomia decisória. Ignorar esse encadeamento não é pragmatismo, mas uma mistura nefasta de imprudência com cegueira ideológica, pois o discurso de autonomia estratégica de uma “diplomacia altiva e ativa” não se sustenta quando não há autonomia tecnológica, industrial ou energética que o fundamente. O resultado, ora, não poderia ser outro que não a crescente irrelevância estratégica. Recordemos que a Grã-Bretanha vitoriana, potência com pretensões de eternidade, começou a declinar precisamente quando deixou de ser a oficina do mundo. Discursos grandiloquentes não compensam fábricas fechadas.

A dissonância entre ambição e realidade

Sob Lula, o Brasil tornou-se indiscutivelmente menor. Perdemos densidade industrial, dinamismo tecnológico e produtividade relativa. Nossa participação nas cadeias globais de valor permanece concentrada em bens primários. Nossa capacidade de inovação é limitada. Nossa infraestrutura logística é precária. Nossa competitividade estrutural é frágil.

Ainda assim, insiste-se em discursar como potência emergente. Essa dissonância entre ambição retórica e capacidade material corrói a credibilidade internacional. O Brasil fala como líder do Sul Global, como mediador entre grandes potências, como articulador de reformas multilaterais, mas carece de densidade econômica, tecnológica e militar básica, absolutamente incompatível com tais pretensões.

Inegavelmente, o Brasil possui vantagens geoeconômicas comparativas que poderiam ser convertidas em instrumentos reais de poder. Somos o segundo maior produtor de alimentos do mundo, detentores de vastas reservas minerais estratégicas, participantes relevantes em cadeias energéticas e um mercado interno de escala continental. Em uma era na qual minerais críticos e segurança alimentar são ativos geopolíticos, o país poderia, por exemplo, negociar acordos estruturantes, consolidar alianças tecnológicas e fortalecer sua posição em fóruns internacionais.

Isso exigiria, evidentemente, uma grande estratégia de longo prazo que objetivasse mais do que a obtenção imediatista de benefícios de curtíssimo prazo, como parece ser exatamente o que está acontecendo em relação às discussões, com Índia e Coreia do Sul, sobre as reservas de minerais críticos e terras raras, que será objeto de análise em um outro artigo. Essa grande estratégia simplesmente não existe.

A ausência de política industrial de longo prazo, a instabilidade regulatória e a incapacidade de formular uma agenda consistente de competitividade minam qualquer possibilidade de converter recursos em influência. Lula prioriza agendas distributivas e simbólicas, enquanto ignora o imperativo central da época, que é o de reconstruir a capacidade produtiva estratégica do Brasil, bem como a infraestrutura física, logística, regulatória, institucional, financeira e diplomática para tanto. Além da moral, é claro, mas aí já seria pedir demais.

O simulacro como estratégia

Há um elemento psicológico e político a ser considerado: o simulacro lulopetista de diplomacia tornou-se compensação simbólica para fragilidades domésticas. Quando o crescimento é anêmico, a produtividade está estagnada e a inovação é insuficiente, a ilusão de protagonismo externo, reverberada pela imprensa chapa-branca, vira narrativa substitutiva de grandeza. Isso ajuda a explicar o fascínio do presidente por viagens internacionais, hotéis caros, luxo e bajulação. Não há compromisso com a verdade, apenas com as aparências e com um protocolo talhado para promover a imagem pessoal do mandatário. Narrativas de grandeza e cultos vulgares à personalidade, porém, não substituem poder de fato, assim como aplausos da claque de plantão não ganham guerras.

O Itamaraty, por sua vez, opera em registros retóricos desconectados da realidade. A imprensa trata defesa e grande estratégia como temas marginais, sem apelo eleitoral. O Brasil não discute poder. Não discute hierarquia internacional. Não discute competição sistêmica. Não discute vulnerabilidades estruturais. E, sobretudo, não discute como integrar defesa, desenvolvimento, indústria, infraestrutura, segurança pública e política externa em uma grande estratégia coerente.

Lula, ao contrário de quem faz um exame honesto das fragilidades nacionais – como Rubio fez em relação ao relativo declínio americano –, insiste tanto na estratégia da negação quanto na da divisão social e polarização, assimiladas e replicadas pelas instituições e pela mídia, em retrato fiel da indigência intelectual de seu governo.

Ignora-se, com isso, que soberania não é um conceito exclusivamente jurídico, mas uma variável econômica, tecnológica e geopolítica. A vulnerabilidade institucional de parceiros representa um fator de cálculo estratégico na política externa das grandes nações, como explicitado por Rubio. O Brasil, ao exibir a presente fragilidade institucional, entra nesse cálculo como variável de risco, não como parceiro estruturante.

O Brasil de Lula já não exerce liderança sequer na América do Sul. Não coordena integração regional de forma consistente. Não oferece bens públicos regionais significativos. Não oferece projetos de infraestrutura transnacional robustos. A realidade histórica registra que um país incapaz de organizar seu entorno imediato dificilmente será ator relevante na competição sistêmica global.

Se o Brasil almeja retomar o caminho da credibilidade internacional e da utilização da política externa como um dos vetores do desenvolvimento nacional, algo que certamente não acontecerá na atual gestão, precisará abandonar a ilusão de que diplomacia substitui poder material e compreender que aquela complementa e legitima este. Precisará aceitar que estamos em uma era de competição sistêmica hierarquizada, na qual ingenuidade estratégica e falatório desconexos custam caro. Precisará compreender que a indústria, a capacidade produtiva, a inovação, a infraestrutura e a segurança energética, dentre outros, são pilares – não apêndice – da ação exterior. Precisará transformar seus recursos naturais em cadeias de valor sofisticadas, e não apenas em commodities embarcadas a granel.

O discurso de Munique deixou claro que as grandes potências já compreenderam que sem densidade econômica sustentada, não há protagonismo internacional. Sem base produtiva e industrial robusta, não há autonomia estratégica. Sem geração de empregos qualificados, renda, inovação e disciplina fiscal não há produtividade e competitividade. Sem hierarquização clara de interesses, não há política externa coerente. Lula e sua camarilha, sabe-se lá por culpa de qual déficit cognitivo, ainda não compreenderam e, a julgar pelos sinais, não compreenderão.

Resta-nos a esperança de que o pleito de outubro ofereça ao Brasil a oportunidade de colocar o Estado – particularmente no que diz respeito à formulação e execução da política externa – a serviço do País, e não do narcisismo jactancioso de quem o governa.

Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa e ex-secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior do Brasil (CAMEX).

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