Coloque um político de direita e outro de esquerda numa sala. Peça para ambos falarem sobre “democracia”. Em cinco minutos, eles vão discordar.
Os manifestos, programas e cartas de princípios dos partidos brasileiros seguem a mesma lógica — dizem palavras iguais, mas para defender projetos diferentes.
O que o PL chama de “liberdade”, o PSOL pode considerar uma “engrenagem de dominação”. O que o MDB classifica como “pacificação” não passa de “rendição burguesa” para os militantes do PSTU.
Para entender o que os grupos políticos realmente querem para o Brasil, a reportagem analisou os conteúdos programáticos das 30 legendas registradas pelo Tribunal Superior Eleitoral. Ou seja, das siglas que estão autorizadas a lançar candidatos, participar do horário eleitoral gratuito e receber recursos públicos.
O levantamento foi realizado por meio da ferramenta Pinpoint, em uma parceria entre a Gazeta do Povo e o Google. O Pinpoint usa inteligência artificial para identificar padrões, localizar termos recorrentes e permitir comparações entre diferentes textos.
O objetivo era mapear as 20 palavras mais mencionadas nesses documentos, mas não parar na contagem pura e simples. Isso porque o resultado revelou um vocabulário homogêneo, porém usado com sentidos bem diferentes — e muitas vezes opostos.
Quem é quem no tabuleiro político
Para desvendar essa confusão, é preciso primeiro estabelecer como os partidos se distribuem no espectro político brasileiro.
Na esquerda, estão siglas como PT, PSOL, PCdoB, PCB, Unidade Popular e PSTU. Estas legendas defendem um Estado mais presente na economia, políticas sociais financiadas por impostos e, em alguns casos, mudanças profundas no próprio funcionamento do capitalismo.
No campo da centro-esquerda, aparecem siglas como PDT, PSB, Rede e PV. Elas mantêm pautas progressistas e um discurso social forte, mas com tom mais moderado e maior disposição para negociar sua participação em governos variados.
O centro é ocupado por partidos como MDB, PSDB e Cidadania. Essas legendas costumam se apresentar como alternativa à polarização, apostam no diálogo institucional e historicamente mostram maior capacidade de formar alianças tanto com a esquerda quanto com a direita.
Já a direita e a centro-direita reúnem siglas como PL, Novo e Missão. Em comum, elas defendem o livre mercado, a responsabilidade fiscal, a redução do tamanho do Estado e os valores tradicionais.
Há ainda o centrão, um grande “condomínio” ocupado por legendas como União Brasil, PSD, PP e Republicanos. Menos guiados por programas ideológicos e mais pela governabilidade, esses partidos costumam negociar com administrações de diferentes orientações, conforme as circunstâncias do poder.
A partir das 20 palavras mais recorrentes nos manifestos das 30 siglas, organizamos uma espécie de dicionário comparado da política brasileira — para ajudar o leitor a descobrir qual “democracia” e qual “liberdade” está realmente escolhendo quando vota. Veja a seguir.
1. Brasil
Direita: Associa “Brasil” a sentimentos patrióticos, religiosos e valores tradicionais. É o Brasil-emoção, o Brasil-bandeira, que você defende como se fosse um time de futebol. A ênfase está no potencial grandioso do país e no resgate de princípios perdidos.
Esquerda: Vincula “Brasil” a conceitos de soberania, independência e projeto popular. Não é o país real, com seus limites e contradições — e sim o que deveria existir após uma grande reformulação conduzida de cima para baixo. É o Brasil-utopia, o Brasil-projeto revolucionário.
Centro: Usa “Brasil” de forma mais institucional e conciliadora, com foco em gestão, diálogo e caminhos pragmáticos. É o Brasil-administração, o país que se conserta com boa governança.
2. Democracia
Direita: Entende democracia como democracia representativa clássica. Você vota, elege representantes e eles governam pelos próximos quatro anos. É a democracia das urnas, do voto individual, da alternância de poder dentro das regras do jogo.
Esquerda: Defende uma democracia “plena”, ou “direta”, que deve ser “exercida pelas massas”. Ou seja, não basta votar de quatro em quatro anos — a ideia é espalhar instâncias de participação o tempo todo, com conselhos e assembleias permanentes que aumentam a interferência política no dia a dia da sociedade.
Centro: Fala de democracia como “consolidação institucional”, “cultura democrática” e “diálogo entre diferentes”. O foco está na estabilidade, no respeito mútuo e na capacidade de construir consensos. Quanto menos rupturas, melhor.
3. Desenvolvimento
Direita: Liga desenvolvimento a livre mercado, empreendedorismo, atração de investimentos privados e redução da interferência estatal. Competitividade internacional, inovação e crescimento do PIB também são destaques.
Esquerda: Vincula desenvolvimento a redistribuição de renda, fortalecimento do mercado interno, soberania nacional e justiça social. O conceito é “desenvolvimento nacional com distribuição” — na prática, crescimento guiado pelo Estado, com redistribuição forçada para tentar nivelar a sociedade por cima das regras do mercado.
Centro: Busca equilibrar crescimento econômico com responsabilidade social e ambiental. É o desenvolvimento técnico, mediado por políticas públicas eficientes.
4. Social
Direita: Praticamente não usa a palavra. Quando ela aparece, é em contextos técnicos: “área social”, “assistência social” (sempre enfatizando que deve ser temporária). Prefere falar em “responsabilidade individual”, “caridade privada” ou “iniciativa das famílias”.
Esquerda: Está em praticamente tudo — “justiça social”, “políticas sociais”, “desigualdades sociais”, “direitos sociais”, “transformação social”, “desenvolvimento social”. O “social”, trocando em miúdos, vira a palavra mágica que justifica qualquer intervenção do Estado na economia e na vida das pessoas.
Centro: Usa “social” de forma técnica, sustentada em metas e resultados (“políticas sociais eficientes”, “investimento social”, “programas sociais bem geridos”). É o social administrável, mensurável, gerenciável.
5. Estado
Direita: Vê o Estado como um mal necessário que deve ser minimizado. A palavra praticamente só aparece em contextos negativos: “Estado inchado”, “Estado interventor”, “Estado gastador”. Quando fala do lado positivo, é sempre como “garantidor de segurança jurídica” ou “protetor da ordem”, nunca como impulsionador da economia.
Esquerda: Enxerga o Estado como instrumento de transformação social e garantidor de direitos. É o “Estado forte”, “Estado presente”, “Estado indutor”, “Estado regulador”. Ou então o Estado “controlado pelas massas trabalhadoras” — na prática, um poder cada vez maior concentrado na máquina pública, com a promessa de falar em nome do povo.
Centro: Almeja o Estado “eficiente”, “moderno”, “bem gerido”. Não quer o Estado nem mínimo, nem máximo — mas “otimizado”. A ênfase está na gestão pública de qualidade, parcerias público-privadas e racionalização administrativa.
6. Direitos
Direita: Prioriza direitos individuais, da família tradicional, à propriedade privada, à segurança, à legítima defesa. Há uma certa desconfiança com “novos direitos” ou “direitos coletivos”, vistos como ameaças à liberdade pessoal.
Esquerda: Destaca direitos coletivos, trabalhistas, sociais, de minorias e os tais “novos direitos” (LGBTQIA+, povos originários, quilombolas). Fala até em “direito à cidade” — um conceito amplo o bastante para justificar mais regras, mais planos diretores e mais intervenção pública sobre como e onde as pessoas podem viver e produzir.
Centro: Tenta equilibrar direitos individuais e coletivos usando uma linguagem mais genérica (“direitos humanos”, “do cidadão”, “constitucionais”). Mas não deixa muito claro quais direitos vêm primeiro.
7. Liberdade
Direita: O papo aqui é sobre liberdade econômica, livre mercado, ausência de regulação estatal, direito de empreender sem burocracia, propriedade privada sem restrições. É a liberdade de não ser incomodado, tributado ou regulado pelo Estado.
Esquerda: O conceito envolve emancipação coletiva, libertação da opressão econômica, fim da exploração, soberania popular. É uma ideia de liberdade apresentada como salvação das massas, que depende exclusivamente de um Estado forte para tirar de uns e dar para outros.
Centro: Prefere liberdades “democráticas” e “civis” (sempre no plural). É a liberdade institucionalizada, garantida por lei — e que não incomoda a direita e a esquerda porque não questiona nem o mercado, nem a redistribuição.
8. Políticas
Direita: Menciona pouco, porque parece duvidar que o Estado consiga fazer boas políticas. Quando aparece, é com ressalvas: “políticas públicas eficientes”, “políticas públicas focalizadas” (jamais “universais”), “parcerias com o setor privado”.
Esquerda: Usa quando quer soar institucional, em vez de revolucionária. Prefere falar em políticas “sociais robustas” e “públicas universais” — uma forma de dar verniz técnico a propostas que, no fundo, ampliam o tamanho e o alcance do Estado.
Centro: Adora o termo, principalmente a variação “políticas públicas” (acompanhada de “eficientes”, “setoriais”, “de desenvolvimento”, “integradas”). É o vocabulário da tecnocracia bem-intencionada.
9. Educação
Direita: Enfatiza “liberdade educacional”, “escolha das famílias”, “educação sem doutrinação”, “ensino de qualidade”. Confia na autoridade dos pais e rejeita “ideologias” na escola. Defende meritocracia, vouchers educacionais e a opção pelo ensino privado.
Esquerda: A conversa gira em torno de “educação pública, gratuita e de qualidade”, “gestão democrática das escolas”, “educação emancipadora”, “valorização dos professores”, “combate à privatização do ensino”. A educação funciona como um instrumento explícito de reengenharia social.
Centro: Fala em “educação de qualidade”, “investimento em educação”, “melhoria dos indicadores educacionais”. É a educação-resultado, medida por índices e rankings internacionais.
10. Trabalho
Direita: Prefere “emprego”, “geração de empregos”, “mercado de trabalho”, “empregabilidade”, “qualificação profissional”. O trabalho é visto como uma negociação entre empregador e empregado, regulada por oferta e demanda. É a favor de flexibilização, redução de encargos e maior liberdade para contratar e desligar funcionários.
Esquerda: Repete, à exaustão, “classe trabalhadora”, “direitos dos trabalhadores”, “organização dos trabalhadores”, “luta dos trabalhadores”. O trabalho deixa de ser uma relação econômica e vira uma causa moral, que precisa ser blindada das regras do mercado — mesmo que isso engesse empresas e reduza a criação de empregos.
Centro: Caminha pela via do equilíbrio e da retórica do meio-termo. Fala em “trabalho digno” e “direitos trabalhistas essenciais”, mas também em “modernização das relações de trabalho”.
11. Futuro
Direita: Aqui o futuro deve ser “próspero”, “livre”, “de oportunidades”. É o futuro do crescimento econômico, da mobilidade social a partir do mérito, das conquistas individuais.
Esquerda: O termo vem sempre com “justo”, “igualitário”, “emancipado”. É a promessa de um futuro redesenhado do zero, com a sociedade reorganizada segundo um ideal de igualdade — ainda que isso exija alterar profundamente as regras e as estruturas já consolidadas.
Centro: “Sustentável”, “equilibrado”, “moderno”. É o futuro seguro, previsível, gerenciado por políticas públicas eficientes.
12. Povo
Direita: Costuma evitar. Prefere “cidadãos”, “brasileiros”, “pessoas”, “indivíduos”. Quando usa, o que é raro, recorre a adjetivos (povo “de bem”, “ordeiro”, “trabalhador”).
Esquerda: Politiza o termo ao máximo. E dá-lhe “poder do povo”, “participação do povo”, “organização do povo”, “soberania popular” — expressões que, no fim das contas, acabam justificando um palanque permanente e a pressão constante de grupos organizados em cima das decisões públicas.
Centro: Menciona de forma moderada, geralmente em situações ligadas às regras do jogo democrático: “vontade do povo”, “representação do povo”. É o povo-eleitorado, conjunto de cidadãos que votam.
13. Nacional
Direita: O foco é “segurança”, “defesa”, “interesse” nacional. É o nacional-soberania territorial, proteção contra ameaças externas, defesa das fronteiras.
Esquerda: Enfatiza “soberania”, “independência”, “projeto nacional”. É o nacional-libertação — uma visão que coloca o país em confronto constante com “forças externas” e usa o discurso anti-imperialista para justificar mais intervenção estatal e menos abertura econômica.
Centro: Fala em “desenvolvimento” e “integração”. É o nacional-gestão, no sentido de território a ser modernizado, conectado e inserido de forma competitiva na economia global.
14. Economia
Direita: Economia de “mercado” e “livre”, além de “crescimento econômico”, são as variações mais encontradas. A tônica é a economia autorregulada, movida por empreendedores, com o Estado apenas garantindo as regras do jogo.
Esquerda: Economia “popular”, “solidária”, “a serviço do povo”. A ordem não é deixar o mercado funcionar — mas entregar ao governo a tarefa de dizer quem produz o quê, para quem e em quais condições, trocando a lógica comercial por decisões tomadas em gabinete.
Centro: Tenta conciliar crescimento com distribuição, mercado com regulação. Se a economia for “moderna”, a coisa anda.
15. Sociedade
Direita: É a sociedade formada por indivíduos e famílias, não por classes. A célula básica é a família tradicional, não o coletivo.
Esquerda: Trabalha com a ideia de que a sociedade atual está estruturalmente errada e deve ser reformulada quase do zero, como se tudo fosse opressão a ser derrotada.
Centro: Sociedade “plural”, “civil organizada”, “democrática”. É a sociedade-diversidade, um conjunto de grupos e interesses que devem conviver em harmonia.
16. Saúde
Direita: Prioriza “liberdade de escolha”, “saúde suplementar”, “parcerias público-privadas”, “gestão eficiente”. Defende o SUS para quem não pode pagar, mas também a possibilidade de optar por planos privados sem financiar as duas estruturas ao mesmo tempo.
Esquerda: Os mantras são “SUS forte e bem financiado”, “saúde pública universal e gratuita”, e “combate à privatização da saúde”. O objetivo é blindar a saúde de qualquer lógica de mercado e fechar o espaço para o setor privado, como se só o Estado pudesse dar conta do recado.
Centro: Fala em “saúde de qualidade”, “investimento em saúde”, “fortalecimento do SUS”, mas também em “parcerias com o setor privado”. Tenta conciliar o sistema público com a participação da rede particular.
17. Justiça
Direita: Usa “justiça” no sentido jurídico: combate ao crime, punição, sistema penal, Poder Judiciário. Defende justiça “rápida”, “eficiente” e o “combate à impunidade”. É a justiça-instituição, um aparelho do Estado para punir criminosos.
Esquerda: O sentido aqui é outro, de “justiça social”. Os documentos citam a justiça “distributiva”, “racial”, de “gênero”. É a justiça-valor, transformada em bandeira política e usada para justificar intervenções do Estado e políticas voltadas para grupos específicos.
Centro: Tenta trafegar entre os dois sentidos — fala em “justiça social” de forma suave e em “justiça eficiente” num tom mais técnico. A ideia é não desagradar ninguém.
18. Cidadão
Direita: “Cidadão de bem” é a expressão que mais aparece, além de “direitos do cidadão” e “respeito ao cidadão”. É o indivíduo enquanto titular de direitos civis e políticos.
Esquerda: “Cidadania plena”, “exercício da cidadania”, “cidadania ativa”. É o cidadão visto acima de tudo como militante, não apenas como alguém que tem direitos garantidos na lei.
Centro: “Cidadão” é o termo neutro preferido: nem “povo” (soa esquerdista) nem “indivíduo” (soa liberal demais).
19. Sustentável
Direita: Usa, porém com foco econômico (“sustentabilidade econômica”, “desenvolvimento sustentável via mercado”, “sustentabilidade fiscal”). A mensagem, em resumo, é crescer sem comprometer o futuro.
Esquerda: Fala em “sustentabilidade ambiental”, “desenvolvimento sustentável com justiça social”, “sustentabilidade dos povos originários”. Coloca a proteção ambiental e as pautas identitárias acima do ritmo de crescimento, mesmo que isso implique travar obras, investimentos e a expansão econômica.
Centro: Trabalha com expressões, digamos, elásticas (como “sustentabilidade integrada” e “sustentabilidade como paradigma”). Busca conciliar economia, ambiente e sociedade — sem especificar o que fazer quando há conflito.
20. Mudança
Direita: Quando está na oposição, promete “mudança” para reverter políticas esquerdistas. No governo, fala em “mudança responsável” ou “mudança gradual”. É mudar para resgatar valores tradicionais.
Esquerda: Promete mudança “estrutural”, “profunda” e “transformação”. Quer mexer nas bases do sistema, e não apenas ajustar o que não funciona — mesmo que isso signifique derrubar o que já está de pé.
Centro: Discursa pela mudança “necessária”, “mudança equilibrada”, “mudança com diálogo”. A ordem é mudar, mas sem radicalizar.
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