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O que o Brasil perde — e o que ganha — com o fim dos orelhões

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Foi no dia 20 de janeiro de 1972. A imprensa, os populares, os burocratas e os políticos se reuniram na Rua Uruguaiana para uma solenidade: a da inauguração do primeiro orelhão do Brasil. Cinco dias depois do evento no Rio de Janeiro, os primeiros orelhões eram instalados em São Paulo e, nos meses seguintes, em todo o Brasil.

Lá se vão mais de 54 anos. Nesse tempo, os orelhões fizeram parte da paisagem urbana, rural e praiana dos brasileiros, que por esses aparelhos conversaram sobre a ditadura, a anistia, as crises econômicas, a hiperinflação, os impeachments, o Plano Real e as Copas do Mundo. A tudo isso e também a incontáveis enchentes os orelhões sobreviveram. Mas não sobreviveram à tecnologia.

A conta não fecha

E foi assim, sem muito alarde, que a Anatel determinou a retirada, até 2028, de todos os orelhões existentes no país. Isto é, dos mais de 30 mil de orelhões restantes de um universo que, nos anos 1990, chegou a ter 1,5 milhão de aparelhos.

A expectativa da agência reguladora e das operadoras é que, daqui a dois anos, restem apenas 9 mil orelhões no Brasil, distribuídos em áreas que a cobertura 4G ainda não alcança, mas que um dia invariavelmente vai alcançar.

Por quê? Os motivos são óbvios: os orelhões se tornaram desnecessários e a conta não fecha mais.

Para se ter uma ideia, de acordo com o IBGE, 88,9% da população com mais de 10 anos de idade tinha celular em 2025. Dados do mesmo ano apontam para a existência de mais de 500 milhões de aparelhos de celular no Brasil.

Por fim, entre 2018 e 2025 as operadoras de telefonia gastaram R$ 1,69 bilhão na manutenção dos obsoletos orelhões, raramente usados pela população e frequentemente alvos de vandalismo.

Design icônico

Os orelhões existiam para satisfazer uma necessidade: a da comunicação urgente. Mas eles seriam apenas telefones públicos se não fosse pelo seu design icônico.

Criado pela arquiteta e designer Chu Ming Silveira, o formato do orelhão não era inspirado na orelha humana, como muitos pensam, e sim… no ovo. Aliás, duas informações curiosas: o nome oficial do orelhão é Telefone de Uso Público (TUP). E o conjunto de três ou mais orelhões era chamado de “tulipa”.

O formato ovaloide garantia um isolamento acústico razoável. Os orelhões aguentavam de 70 a 90 decibéis em meio ao caos urbano. Feitos em fibra de vidro, material resistente aos extremos do clima tropical, os orelhões também serviam de proteção contra o sol e a chuva.

Não havia porta, mas quem entrava naquele casulo realmente sentia, enquanto durasse a ligação, que a cidade e a amnésia (“por que não trouxe um guarda-chuva?”) ficavam do lado de fora.

Apesar da concorrência, como as cabines telefônicas de Londres ou Nova York, o projeto brasileiro se mostrou tão eficiente que virou produto de exportação. Durante algum tempo, orelhões podiam ser encontrados em Moçambique, Angola, Peru, Colômbia, Paraguai e até na China.

Não por acaso, em 2012, quando o orelhão já tinha começado a desaparecer ou virar ruína, ou lata de lixo improvisada, São Paulo organizou a Call Parade, uma brincadeira com a Cow Parade (exposicão urbana de esculturas de vacas decoradas), transformando cem orelhões em peças e instalações artísticas. Era o início do fim.

Cenas que só os orelhões produziram

A novidade não só pegou como fez sucesso. Ainda na década de 1970, Carlos Drummond de Andrade dedicou ao orelhão uma crônica, dizendo que “A verdade é que a rua ficou sendo outra coisa, com as pessoas descobrindo que não precisam mais fazer fila no boteco ou na farmácia para dar um recado telefônico. Na própria calçada, uma vez comprada a ficha no jornaleiro, comunicam-se. Tão simples”.

Orelhões também foram disponibilizados no show de Frank Sinatra no Maracanã, em 1980. Na verdade, eram “orelhões volantes” instalados pela Telerj em kombis.

Difícil imaginar hoje o que justificaria interromper o show do Sinatra para fazer uma ligação. Mas o fato é que os “orelhões volantes” fizeram sucesso. Tanto que, três anos mais tarde, eles aparecem em Ipanema, oferecendo telefonemas aos banhistas.

Isso sem falar no tradicional orelhão instalado dentro do gramado do Maracanã. Aliás, outros estádios também tinham orelhões, como o Pacaembu e o Parque Antarctica (atual Allianz Parque). Originalmente destinados ao uso da imprensa, os orelhões rapidamente se transformaram em palco para comemorações entusiasmadas dos jogadores depois do gol.

Perdas e ganhos

Era uma relação diferente, a que as pessoas tinham com o telefone. Ainda mais o telefone público. Pelos orelhões, mães davam recados urgentes, casais marcavam encontros, namorados atravessavam a noite ao tilintar irritante das fichas caindo e até jornalistas transmitiam notícias exclusivas para editores estressados e movidos a cigarro e cafeína.

Falar ao orelhão era também um exercício de convivência. Afinal, havia fila e, quando havia fila, havia negociação. Porque também havia níveis diferentes de urgência. E havia o pudor — certas coisas não se falavam em público. Nem baixinho.

Havia, por vezes, a necessidade de pedir uma ficha emprestada. Havia a gentileza de ceder o orelhão. E havia algo de impensável em tempos de redes sociais: o esforço consciente para respeitar a privacidade e não ouvir a conversa alheia.

Com o celular, tudo isso desapareceu e, como sempre acontece nesses casos, houve perdas e ganhos. Isto é, se por um lado ganhamos autonomia, velocidade e privacidade, por outro perdemos o contato com o outro, bem como a capacidade de dividir o mundo com desconhecidos.

Peça de museu

O fato é que os orelhões desaparecerão da paisagem urbana daqui a dois anos. E, quando isso acontece, é normal que um objeto tão icônico vire peça de colecionador.

Tanto é assim que, numa pesquisa rápida em sites como OLX e Mercado Livre, pode-se encontrar orelhões completos por cerca de R$ 2 mil, dependendo do estado do aparelho. Já as fichas telefônicas, aquelas que a Geração Z não sabe, mas deram origem à expressão “caiu a ficha”, saem por R$ 10 cada.

Mas, antes que os orelhões desapareçam de vez e esta matéria descambe para um saudosismo tão barato quanto inútil, vale a pena perguntar: qual foi o seu telefonema mais importante num orelhão? Aquela ligação que mudou tudo, o recado que não podia esperar, a conversa que precisava acontecer ali, naquele momento, naquela concha laranja no meio da rua?

Porque os orelhões vão virar peça de museu e, em alguns casos, peça de decoração cafona na casa de novo rico, mas as histórias que eles testemunharam ainda estão por aí e merecem ser contadas antes que a gente esqueça que um dia foi preciso sair de casa, procurar um telefone público, enfrentar fila e usar uma ficha ou cartão para dizer algo realmente urgente a alguém distante.

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