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Por que a polilaminina pode não ser o milagre anunciado

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Aconteceu de novo. E parece que vai acontecer outras vezes mais, sempre que somos movidos pelas paixões, e não pela razão prudente. Estou falando da polilaminina, a molécula supostamente milagrosa (e em forma de cruz, ainda por cima!), que devolve os movimentos a tetraplégicos. Uma descoberta da bióloga brasileira Tatiana Coelho de Sampaio, que merece o Nobel. Aliás, já ganhou! já ganhou! já ganhou!

Parece que não é bem assim. Que, apesar dos resultados promissores, a ciência é um tiquinho mais complicada do que esse auê todo que está sendo feito. A ciência não anda no mesmo passo que a nossa esperança. Algo, aliás, que já deveríamos ter aprendido durante a pandemia de Covid-19. Mas somos uns tolos ignorantes e esperançosos. Sobretudo esperançosos. Acreditamos na engenhosidade humana. Daí a empolgação e o deslumbre iniciais com a polilaminina. Agora, porém, vem o choque de realidade.

Picaretagem?

Passei os últimos dias lendo sobre o assunto e é importante deixar claro que, da mesma forma que não existem dados conclusivos sobre a eficácia da molécula, tampouco há dados conclusivos sobre a ineficácia dela. Ou seja, não se pode falar em picaretagem, como andei vendo alguns sentenciando por aí. (Pessoal é rápido para julgar, né?). Me parece que estamos diante do caso de uma cientista apaixonada por si e pelo seu trabalho. Alguém que perdeu o olhar objetivo. Só isso.

Quais as dúvidas? Para um leigo, tudo é muito confuso, mas vou tentar explicar o que entendi: o maior problema da pesquisa é que a polilaminina tem de ser administrada nas primeiras 72 horas depois do trauma na medula. Nesse intervalo, porém, há muitas variáveis que impedem os médicos de determinar se a pessoa ficará ou não tetraplégica. A recuperação dos movimentos, portanto, pode ser algo natural, e não efeito do tratamento com polilaminina.

Cautela esperançosa

Essa dúvida, contudo, a medicina e o tempo mais cedo ou mais tarde irão esclarecer. A nós, leigos que compartilhamos o milagre nas redes sociais e que exaltamos precocemente o feito da pesquisadora, fica uma lição que, repito, já deveríamos ter aprendido com a Covid: cientistas também são humanos, também se apaixonam por si e por seu trabalho, também erram, também se deixam seduzir pelas multidões, também têm interesses não lá muito nobres e uma alma inescrutável.

Dito isso, e uma vez cumpridas todas as etapas do método científico, tomara que a dra. Tatiana esteja certa, que os tetraplégicos do mundo todo tenham acesso fácil e barato à polilaminina e que voltem a andar. E, em estando certa a bióloga, que ela ganhe o Nobel e todas as honrarias a que tem direito. Mas só depois de comprovada cientificamente a eficácia do medicamento. Até lá, o negócio é manter certa cautela. Uma cautela esperançosa, mas ainda assim cautela.

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