“O Holocausto judeu foi cafetinado pelo sionismo”, afirmou o sociólogo Jessé Souza — doutor pela universidade mais antiga da Alemanha, professor aposentado pela Universidade Federal do ABC, ex-presidente do Ipea e considerado uma referência intelectual no país.
A frase foi dita por Souza em um vídeo postado em suas redes sociais no início deste mês. O tema era Jeffrey Epstein, o bilionário americano condenado por tráfico sexual de menores.
Em outras palavras: para ele, o extermínio de seis milhões de judeus foi explorado como um negócio lucrativo pelo próprio povo judeu.
Em tom professoral, o sociólogo de 65 anos definiu Epstein como “o produto mais perfeito do sionismo judaico”. Ele também afirmou que Israel deu ao investidor uma “autorização explícita” para seus crimes, como parte de uma rede de chantagem geopolítica apoiada inclusive por Hollywood.
As declarações pegaram tão mal que até setores da esquerda condenaram Souza — e uma notícia-crime foi protocolada no Ministério Público Federal por racismo e antissemitismo.
Em uma nota de repúdio, a Conib (Confederação Israelita do Brasil) afirmou: “É lamentável que Jessé de Souza use a sua projeção na vida acadêmica e nas redes sociais como plataforma para disseminação de conceitos carregados de ódio contra judeus”.
O sociólogo apagou os vídeos e se desculpou pelo suposto “escorregão” de não ter separado judeus de sionistas. Mas disse que mantinha “todo o resto”, reafirmando que Epstein é um filho direto da ideologia “racista e assassina” do sionismo.
Para quem não conhece Souza, a polêmica de dias atrás pode parecer um episódio isolado envolvendo um intelectual que foi longe demais. Mas não é.
As acusações de antissemitismo apenas marcam o estágio atual da trajetória de um acadêmico que deixou o ambiente universitário para se tornar polemista em tempo integral — e hoje é uma das figuras mais polarizadoras e radicais do debate público brasileiro.
Os alvos preferenciais de suas críticas, que muitas vezes beiram o discurso de ódio, são a classe média, os evangélicos, os bolsonaristas e, acima de tudo, aqueles por ele rotulados como “pobres de direita”.
Um Brasil em que você é o vilão
O núcleo do pensamento de Jessé Souza pode ser resumido assim: o Brasil é uma sociedade estruturada pela escravidão, onde a elite econômica mantém o povo pobre e negro numa condição de servidão disfarçada.
Quem critica o Estado, defende o combate à corrupção ou apoia o livre mercado está, conscientemente ou não, fazendo o trabalho sujo dessa elite. E os pobres que votam em candidatos conservadores são “bastardos” que internalizaram os valores do opressor — um processo chamado por ele de “embranquecimento subjetivo”.
Já a classe média, segundo Souza, funciona como a “tropa de choque” da elite, movida não por convicção, mas pelo prazer em humilhar quem está abaixo. Em palestras, o acadêmico chegou a chamar a classe média do Sul do país de “lixo branco” (um termo americano usado para insultar brancos de baixa renda).
Os evangélicos recebem um tratamento parecido. O sociólogo até reconhece que as igrejas acolhem pessoas que o Estado abandonou, mas cobram um preço ideológico por isso.
Segundo Souza, os fiéis aprendem a direcionar suas insatisfações contra bodes expiatórios — a comunidade LGBT, os beneficiários do Bolsa Família, o comunismo —, em vez de usá-las contra seus “reais exploradores”. Para Jessé Souza, a aliança entre o neopentecostalismo e a direita (especialmente a bolsonarista) é “a grande base institucional da mensagem fascista no Brasil atual”.
Esse discurso não é somente um pedido por justiça social. Souza defende uma espécie de ressentimento organizado — nem que seja na forma de um “ódio saudável aos ricos”, como ele mesmo diz.
Controlados pela humilhação
O ressentimento para Jessé Souza não é só um combustível político — também faz parte de seu método pseudocientífico para entender o Brasil. Misturando sociologia com psicanálise, ele construiu uma teoria em que a humilhação é o principal instrumento de controle dos ricos sobre os pobres.
Segundo Souza, o trabalhador não se mantém na base da pirâmide apenas porque não tem dinheiro ou qualificação, mas porque décadas de degradação sistemática corroem sua identidade, autoestima e vontade de reagir.
A origem dessa teoria, ele admite, não está em estatísticas ou documentos históricos — parte de lembranças da infância que moldaram sua visão de mundo. O acadêmico costuma contar que viu o pai, sargento do Exército e chefe de uma família de seis filhos no Rio Grande do Norte, ser tratado como “fracassado” e “humilhado” por parentes mais ricos.
Para os críticos, o problema do discurso do sociólogo não é a sua tese em si. A fragilidade está no fato de que ele a usa como a única explicação possível para tudo (como a turma do “racismo estrutural” faz com praticamente qualquer desigualdade, conflito ou fracasso individual).
Biblioteca extremista
Jessé de Souza se formou em Direito na Universidade de Brasília com o objetivo de “resolver a vida”. A escolha pragmática, no entanto, não resistiu aos seus verdadeiros interesses: filosofia, literatura e ciências sociais.
Depois de cursar o mestrado em Sociologia, também na UnB, ele partiu para um doutorado na Alemanha, na Universidade de Heidelberg, e completou um pós-doutorado na New School for Social Research, em Nova York.
Essa formação motiva outra acusação frequente: a de que Souza é um produto da elite intelectual europeia e americana de esquerda que voltou ao Brasil decidido a demolir, e substituir, os fundamentos clássicos do pensamento social do país.
Ao longo das últimas duas décadas, essa ambição virou uma sequência de livros que foram se tornando cada vez mais agressivos no tom e radicais nas conclusões.
Em A Ralé Brasileira (2009), o sociólogo apresenta a ideia de que cerca de 40% dos brasileiros formam uma classe condenada desde o nascimento — herdeiros diretos, segundo ele, do período escravista.
O alvo de A Tolice da Inteligência Brasileira (2015) é uma trinca de grandes pensadores do país: Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro, Roberto DaMatta — todos, na visão de Souza, cúmplices da elite “saqueadora”.
Em A Elite do Atraso (2017, com edição ampliada publicada em 2019), seu maior sucesso de vendas, ele aprofunda a tese de que a escravidão explica tudo no Brasil (da corrupção ao voto em Bolsonaro). Já o polêmico O Pobre de Direita (2024) afirma que os eleitores de políticos conservadores são psicologicamente manipulados a defender os interesses de quem os explora.
O recente Por que a Esquerda Morreu? (2025) talvez seja o seu maior convite à radicalização. O livro defende que a militância esquerdista, incluindo os petistas, deve abandonar a preocupação com salário e emprego (o que o sociólogo chama de “economicismo vulgar”) e partir para um confronto aberto contra a influência cultural das elites e do mercado financeiro sobre a cabeça do povo.
Gestor ou militante?
Com uma obra que já havia se tornado referência obrigatória na academia brasileira, Jessé Souza era, em 2015, o intelectual de esquerda mais credenciado para dar um verniz teórico sofisticado às bandeiras do PT.
O governo de Dilma Rousseff não deixou passar a oportunidade: em abril daquele ano, o sociólogo foi nomeado presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea. Sua passagem pelo poder, no entanto, durou pouco — e não deixou um legado técnico memorável.
À frente de uma instituição criada para produzir pesquisa com dados, ele concedia entrevistas calcadas em ideologia. Agia mais como militante do que como gestor estatal.
Seu alvo preferencial era essa entidade chamada “elite” — que, segundo suas declarações da época, queria “mandar sem ter voto” e buscava “demonizar a política e o Estado”.
Em maio de 2016, com a chegada de Temer ao poder, Souza foi exonerado do cargo. Ele narra a saída como um pedido de demissão voluntário em protesto ao “golpe” contra Dilma.
Referência no Enem
Hoje Jessé Souza se apresenta como “reitor” do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) — plataforma online de cursos e mídia que ambiciona ser uma espécie de versão progressista da produtora conservadora Brasil Paralelo.
O ICL surgiu de sua amizade com o empresário carioca Eduardo Moreira, ex-sócio do Banco Pactual tardiamente convertido ao esquerdismo. Em 2024, o projeto ganhou o reforço de um parceiro comercial de peso: o youtuber Felipe Neto.
Mas a influência de Jessé Souza não parou nas universidades nem nas redes sociais. Chegou ao ensino médio — e às provas do Enem.
Nos últimos anos, termos disseminados pelo sociólogo, como “subcidadania” e “ralé”, passaram a aparecer em redações com nota máxima e a ser elogiados pelos corretores como uso qualificado de repertório sociocultural.
Cursinhos começaram a ensinar Jessé Souza como referência “segura” para temas de desigualdade e cidadania. O percurso é previsível: a universidade forma professores, estes levam os conceitos para as salas de aula e os alunos os reproduzem como se fossem sinônimo de inteligência.
E assim, as teses de um sociólogo hoje investigado por antissemitismo viraram modelo para adolescentes que, na maioria das vezes, não sabem quem estão citando — e muito menos o que esse autor pensa sobre eles e suas famílias.
Lava Jato e a “lorota da corrupção”
Em entrevista à Gazeta do Povo, Jessé de Souza falou sobre suas ideias, sua trajetória recente e as acusações de antissemitismo.
Questionado sobre a percepção, comum entre os conservadores, de que ele promove um discurso hostil à classe média e aos eleitores de direita, Souza diz considerar essa leitura “normal”. “O trabalho do intelectual é tocar nas questões que as pessoas procuram evitar.”
O sociólogo também comentou as críticas de que seu discurso nega uma autonomia de pensamento aos evangélicos e aos “pobres de direita”. “É óbvio que essas pessoas não pensam com a própria cabeça. Elas são desorientadas.”
Para o acadêmico, essa desorientação não é uma fraqueza natural desses grupos, mas o produto de uma imprensa corporativa privada e neoliberal que nunca explicou ao povo brasileiro quem são seus “reais inimigos”. “Se você só ouve a mesma coisa em todos os jornais, em todas as televisões, isso não é imprensa, isso é manipulação.”
Ao falar do conflito de classes que permeia toda a sua obra, Jessé Souza rebate a alegação de que estaria estimulando uma guerra social. Ele diz que não criou esse antagonismo — apenas descreve uma tensão comum no cotidiano brasileiro.
“O conflito já existe. Negros e pobres são tratados de forma desumana. Eu apenas procuro mostrar como esse mecanismo funciona”, afirma.
Sobre a avaliação de que ele teria se tornado mais combativo e radical ao longo dos anos, Souza reconhece uma mudança de postura — e a atribui, em parte, ao início da Operação Lava Jato.
“Eu via muita gente, inclusive da esquerda, achando que tinha que ter a Lava Jato para a corrupção parar. E sempre achei essa lorota da corrupção uma forma de imbecilizar o povo.”
Por fim, o sociólogo negou ter feito afirmações antissemitas em seu vídeo sobre o caso Epstein. Segundo ele, sua crítica se dirigia a estruturas de poder e a lobbies, não ao povo judeu.
Jessé Souza ainda invocou sua condição de cientista social para justificar as declarações mais graves. “O que um cientista faz é levantar hipótese. A hipótese pode estar certa, pode estar errada. Se estiver errada, você deve entrar com argumentos, e não com pichação, como eu fui vítima.”

