O futuro do Irã pode parar nas mãos de um homem que não põe os pés em Teerã há quase 50 anos. Reza Pahlavi nasceu em 1960 e deixou o país em 1978, quando foi estudar nos Estados Unidos. Nunca mais voltou à terra natal.
Nos EUA, o iraniano fez treinamento militar no Texas e concluiu sua formação como piloto de aviões de combate. Ele viveu também no Egito e no Marrocos e, em 1984, voltou para o território americano para morar em Maryland.
Hoje, aos 65 anos, Pahlavi se apresenta como uma esperança para um povo que atravessa a mais profunda crise em décadas. O peso simbólico de seu nome explica essa projeção. Ele é o filho do último rei do Irã, o xá Mohammad Reza Pahlavi.
Nos protestos no país, manifestantes passaram a gritar “viva o rei”, evocando o herdeiro como um nome de ruptura com o atual regime. E do exílio, Pahlavi tem se colocado à disposição para conduzir uma transição democrática e pacífica.
Modernização, opressão e revolução
Mohammad Reza Pahlavi governou o país como uma monarquia de 1941 a 1978 e promoveu profundas reformas políticas e sociais. Com o respaldo dos Estados Unidos, o Irã teve forte crescimento econômico no período e garantiu, por exemplo, direitos às mulheres.
Entretanto, o processo de ocidentalização desagradava o clero muçulmano xiita. Ao mesmo tempo, grupos de esquerda, apoiados pela então União Soviética, reivindicavam mais igualdade e denunciavam casos de corrupção e opressão.
O governo do xá respondia com a Savak. Criada com apoio dos americanos, a polícia secreta vigiava opositores, censurava a imprensa e recorria à tortura. O medo imposto pelo aparato de segurança ajudou a corroer a legitimidade da monarquia e alimentar a revolta popular.
Aos poucos, a retórica radial islâmica foi ganhando força até que, em 1979, o reinado de Pahlavi acabou. Foi quando ocorreu a Revolução Iraniana, que culminou com a deposição do xá e a instauração de uma República Islâmica, liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini. Desde então, o país é comandado pelos fundamentalistas religiosos.
Teocracia ameaçada
Há 47 anos no poder, o regime teocrático nunca esteve tão ameaçado como agora. Desde o final do ano passado, o Irã foi tomado por protestos que ocuparam a capital e o interior, numa escalada de insatisfação e violência sem precedentes.
Na terça-feira (13), autoridades do país admitiram a morte de mais de 2 mil pessoas. Entretanto, de acordo com a agência de notícias Reuters, os representantes do regime afirmam que “terroristas” são responsáveis pelas mortes — ao lado de Estados Unidos e Israel, dois inimigos políticos dos xiitas.
Os protestos no Irã explodiram diante da alta da inflação, da perda do poder de compra do rial, do desemprego e da escassez de itens básicos. A crise econômica se somou ao desgaste com a repressão política, a censura e décadas de poder concentrado no regime dos aiatolás, liderado desde 1989 pelo aiatolá Ali Khamenei.
No Irã, o presidente é eleito pelo voto popular e chefia o Executivo, mas seu poder é limitado. Ele governa sob a autoridade do aiatolá supremo, que controla as Forças Armadas, o Judiciário e a política externa. O atual é Masoud Pezeshkian, eleito em 2024.
O país é conhecido também por financiar grupos armados no Oriente Médio, como o Hezbollah, o Hamas e milícias no Iraque e no Iêmen. O apoio inclui envio de dinheiro, armas, treinamento e logística, como forma de expandir sua influência regional e confrontar Israel
Líder à distância
É neste cenário que a figura do herdeiro do rei iraniano voltou aos holofotes. Do exílio, Reza Pahlavi aparece como o principal opositor do regime. Em vídeos e comunicados, ele tem se dirigido diretamente ao povo, pedindo a união de todos no momento histórico.
O discurso do filho do antigo xá, que morreu em 1980, aposta na queda do sistema teocrático e na construção de um novo velho Irã. Um país democrático, laico e baseado em eleições livres.
Pahlavi não reivindica a restauração da monarquia. Ele defende que o futuro político do Irã seja decidido pela própria população. “Cabe ao povo escolher se quer uma república, uma monarquia constitucional ou outro modelo”, afirma.
A atuação dele, porém, ocorre à distância. O iraniano não está enfrentando diretamente a repressão do regime. Ainda assim, intensificou contatos com governos estrangeiros interessados no destino do Irã.
Há, também, resistência ao príncipe nomeado nos anos 60. Para parte dos iranianos, a dinastia Pahlavi remete a autoritarismo e desigualdades do passado. Dentro do país, a oposição reúne liberais, nacionalistas e minorias étnicas.
Mesmo assim, em meio ao colapso econômico e à repressão crescente, o herdeiro do xá reaparece como alternativa possível. Sem tropas, sem partido e sem território, Reza Pahlavi aposta em sua visibilidade internacional.
Vida pessoal discreta
A queda da monarquia no Irã lançou a família Pahlavi em um exílio traumático. Reza perdeu dois irmãos: Leila, vítima de depressão e overdose, em 2001, e Ali Reza, que se suicidou em 2011.
Longe do trono e do país natal, Reza Pahlavi construiu uma vida no exílio. Casado desde 1986 com Yasmine Etemad-Amini, uma advogada iraniana radicada nos Estados Unidos, o casal tem três filhas, todas americanas.
A rotina do príncipe iraniano é discreta. Ele vive longe do luxo associado à antiga corte persa. Mantém hábitos simples, circula sem aparato de segurança e costuma afirmar que sua família vive “como qualquer outra de classe média”.
Apesar de falar persa fluentemente e manter vínculos com a cultura iraniana, ele admite que suas filhas conhecem o país apenas por relatos, livros e histórias familiares. O Irã, para Pahlavi, está do outro lado do mundo.
Intervenção americana
Os Estados Unidos estão acompanhando a grave crise instalada no país do Oriente Médio. Na terça-feira, Donald Trump afirmou que adotará “medidas muito duras” caso o governo iraniano siga reprimindo com violência os protestos.
Nos bastidores, os EUA passaram a dialogar com figuras da oposição no exílio, como Reza Pahlavi. O herdeiro foi recebido por representantes da diplomacia americana, mas a Casa Branca evita reconhecê-lo formalmente como líder.
Após décadas de conflitos no Oriente Médio, Washington reluta em intervir militarmente neste caso. No entanto, os americanos já realizaram ações recentes no território iraniano, como a que ocorreu em junho de 2024 contra instalações nucleares.
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