Portugal é uma das seleções favoritas para vencer a Copa do Mundo da FIFA de 2026. No entanto, a maioria dos jogadores da equipe não atua em clubes portugueses. Apesar de produzir talentos de classe mundial, o país enfrenta dificuldades para retê-los internamente. Esse paradoxo tem claras implicações econômicas: Portugal sabe como produzir talentos de elite, mas não consegue criar condições para mantê-los, refletindo um desafio estrutural mais amplo que afeta sua economia.
Com apenas 10 milhões de habitantes, Portugal produziu alguns dos maiores nomes do futebol moderno, mas a maioria alcança sucesso fora de seu país. Cristiano Ronaldo, formado no Sporting Clube de Portugal, atingiu o auge de sua carreira no exterior, e técnicos como José Mourinho, que surgiram do sistema acadêmico e de formação de treinadores de Portugal, construíram suas reputações em clubes estrangeiros.
O futebol é apenas um exemplo de um sistema que parece penalizar o mérito por meio da tributação. Portugal ocupa a quarta posição entre os países da União Europeia em termos de esforço fiscal, uma medida da carga tributária efetiva em relação à renda.
Diversas figuras do futebol português identificaram a origem deste fenómeno como estrutural, e não desportiva. Pedro Proença, presidente da Liga Portuguesa e atual presidente da Federação Portuguesa de Futebol, tem alertado há anos que o regime fiscal português limita a capacidade dos clubes de competir com as ligas estrangeiras.
Segundo Proença, a tributação representa um obstáculo concreto em múltiplas dimensões do futebol português. Os indivíduos com rendimentos elevados enfrentam taxas marginais de imposto sobre o rendimento que chegam aos 48%, com sobretaxas de solidariedade adicionais aplicadas aos rendimentos acima de 80.000 euros.
Ao mesmo tempo, os clubes enfrentam um imposto sobre o valor acrescentado (IVA) de 23% sobre a venda de bilhetes, o que reduz as receitas líquidas das suas atividades principais, e estão sujeitos ao regime geral do imposto sobre as sociedades, que se situa nos 19% em 2026. Nestas condições, Proença defendeu um “choque fiscal” para reduzir estes encargos e permitir que os clubes portugueses compitam em condições mais equitativas com os seus homólogos europeus.
Outros países europeus adotaram uma abordagem diferente. A Itália introduziu o chamado regime de impatriati, que permite que novos residentes se beneficiem de uma redução substancial em sua renda tributável, isentando até 50% da renda do trabalho de impostos por vários anos. Esse regime reduziu significativamente a carga tributária efetiva sobre profissionais altamente qualificados, tornando o país mais atraente para atletas e outros profissionais de alta renda.
A Espanha, por sua vez, implementou a chamada “Lei Beckham”, um regime tributário especial que permitiu que trabalhadores estrangeiros qualificados pagassem uma alíquota fixa reduzida por um período limitado, em vez de estarem sujeitos às alíquotas progressivas padrão.
A própria carreira de Cristiano Ronaldo ilustra essa dinâmica global. Durante sua estadia na Espanha, ele enfrentou um processo tributário que foi resolvido por meio de um acordo em 2019, evidenciando a complexidade da tributação de atletas com renda global e ressaltando como as diferenças nos regimes tributários influenciam as decisões de mobilidade. Posteriormente, ele se mudou para a Itália, que oferecia condições tributárias mais favoráveis para novos residentes. Sua situação reflete a crescente competição entre as nações para atrair talentos altamente qualificados por meio de incentivos fiscais.
Até o momento, Portugal não adotou medidas semelhantes. Programas como o regime de Residente Não Habitual e, mais recentemente, o incentivo fiscal IRS Jovem para jovens trabalhadores tiveram um impacto limitado na retenção de talentos nacionais, e não conseguiram alterar os incentivos estruturais que moldam a mobilidade profissional.
O futebol torna visível um fenómeno mais amplo que afeta toda a economia portuguesa. Tal como jogadores e treinadores, engenheiros, médicos e pesquisadores constroem frequentemente as suas carreiras no exterior, onde encontram condições econômicas e fiscais mais competitivas. Atualmente, cerca de 30% dos cidadãos portugueses com ensino superior vivem fora do país, uma das taxas mais elevadas entre as economias desenvolvidas.
O talento desloca-se para onde os incentivos são mais fortes. À medida que os rendimentos aumentam, também aumenta a carga fiscal, reduzindo a competitividade relativa de Portugal.
Portugal pode produzir alguns dos melhores profissionais do mundo, mas enquanto os desincentivos fiscais e econômicos estruturais se mantiverem, continuará a ser um exportador de talento, investindo na excelência que, em última análise, atinge o seu potencial pleno em outro país.
Cláudia Ascensão Nunes é uma autora e comentarista política portuguesa. Ela é presidente da Ladies for Liberty Portugal e colunista em publicações nacionais e internacionais.
Artigo publicado pela FEE. Original em inglês: How Portugal’s Football Success Reveals Its Economic Failure

